sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Simples

Seu riso ecoa de um lugar que não vejo
Simples, pra você é tudo simples
é um céu amanhecendo, são ondas de um mar
é uma vida a navegar
Acordar piscando devagar, bem devagar
esses olhos pequenos e muito brilhantes
é olhar da janela e pensar que amanhã vai ser outro dia
E me convida, essa vida que minha não é
Eu penso muito
Eu vejo tudo
Eu quero um todo, que não lhe pertence
Estou sempre aqui, estou sempre ali, eu estou em qualquer lugar
Eu vôo alto, eu piso firme
Meu caminho é tão meu
Mas você sorri e me puxa, resistir seria aceitar sem ir?
A vida não seria mesmo assim, penso eu
um querer sempre sem poder, padecer naquilo que deveria mas não é
Mas não há preocupação, não agora
Enquanto seu riso ecoa no vento que chega da janela
e eu sinto que é simples, tudo simples.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Doce vento

Parece que sinto aquilo que sentirei
as flores hoje balançam com o vento, perdidas em um ar que nunca sentiram
amanhã estarão tocadas, mudadas com o hoje
amanhã serão outras, flores
e tu tão diverso, daquilo que enxergo como diverso
produz a emoção do que não conheço
balança as flores, produz efeitos
tu que tão simples, tão singelo és
tu que não seria notado por olhos tão cansados e perdidos como os meus
tu que emerge de um mar de iguais, e luta com a teimosia da minha fuga
eu fujo, olho as flores bonitas, coloridas...sinto o vento
mas sei o amanhã
aquilo que vejo em ti, é melhor do que vi em outrem
pois a ti abraço como sendo menor que a mim, docemente menor
E aquilo que maior foi, nunca alcancei, nunca alcançarei
Tu serás sempre o doce vento desconhecido que balança as flores.

Preciso

Eu preciso
preciso paz, preciso tempo, espaço
eu preciso menos
menos você, menos de mim
menos de tudo que dilata e contrai tudo em minha volta
campo livre
espaço aberto
a melodia soando e insistindo e fazendo sentido só pra mim
preciso menos de ideias que não são minhas
preciso me encontrar
me encontrar comigo
abrigo
chuva, vento, sol, cores verdadeiras
preciso daquilo que o universo produz sem toda a pressão
sem pressa
sem opressão
Eu preciso
preciso pensar ser amanhecer
que fujam a horas
que corram as pessoas
que eu sorria sozinha
e sinta aquilo que somente eu
preciso.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Banharme

Vou banharme
Tirar a lama do corpo
A venda dos olhos
A areia que arde nas janelas confusas, janelas d´alma
A confusão que desejo ver em ti, neles, no mundo
Vocês, tão certos de seus passos cegos em direção ao abismo
Tu, com teu espírito chorando por dentro, por corpo tão prisioneiro.
Seus corpos.
Que vagam incertos gritando ao leo.
Suas almas.
Pedindo socorro, suplício do céu.
Vou banharme
Tirar a lama do corpo
A venda dos olhos
A areia que nasce nas janelas confusas, janelas d´alma.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Pétalas

Somos pétalas.
Somos finos, sutis, coloridos e desmanchamos facilmente.
A vida é a flor que nos mantêm presos, e presos á ela insistimos até o fim.
O fim é o vento, a gravidade, o inevitável.
O vento vem e carrega, sutilmente...
e de repente somos só mais uma pétala que se foi
Tantas outras se vão todos os dias
tantas outras nascem
Permanecemos, nós, pétalas
um tempo cultivando a flor
Algumas deixam delicioso aroma
outras são venenosas
Mas no fim
Os perfumes são iguais,
as cores são as mesmas
a pétala desfalece
e se vai.

domingo, 26 de junho de 2011

Primeiro conto

A menina que esperava

                Cabelos ruivos, olhos cor de mel. Ela via tudo, tudo que os outros não viam. Olhava fundo nos olhos alheios, esperando encontrar o que procurava, nunca encontrava, mas sempre esperava.
            Se contradizia muito em seus atos, mas fazia-se muito sentido. O que ela esperava encontrar é com certeza uma incógnita, nem ela mesma sabia. Sabia o que sentia, o que transbordava, tamanha e constante intensidade de sentimentos.
            Cada fagulha alheia a tocava. Nada passava despercebido. A luz do sol nas árvores. Um sorriso. Uma lágrima solitária no fim da rua. Todas essas coisas a tocavam, fixavam-se nela.
            Olhar pra ela em lugares cheios. Multidões. Lugares que escondem as pessoas. Sentia-se nua. Em um ambiente de desiguais. Estranhos. Sentia-se estranha.
            Olhá-la nas ruas em uma tarde de inverno, seria como enxergar a personificação da paixão. Pensaria talvez que estivesse extremamente enfeitiçada por algo ou alguém. Mas era a beleza das ruas e das pessoas, era a leveza e a liberdade, era o universo inteiro caindo sobre sua cabeça. Como floquinhos de neve.
            Doce domingo. Banco do parque, crianças a brincar. Uma flor pra mãe. Emerge de suas prolixas teorias sobre os homens e seus sentimentos. É uma flor que fura o asfalto, é a esperança de um dia vazio, é o que sobrou no mundo. Presente. Levanta-se e parte, o dia brilhou aquele instante.
            Era extremamente doloroso viver em um mundo cinza como este. Com pessoas cegas e apáticas. Ela sentia-se apaixonada a todo instante, mas parecia que vivia sozinha. Por que vivia sozinha?
            Visitava lugares que ninguém costumava visitar. Venerava o silêncio da paz em cemitérios, galocha de chuva e margaridas nas mãos. Não entendia porque as pessoas consideravam um lugar triste, lá sentia-se liberta, fora de um mundo cheio de prisões de costumes e enquadramentos desnecessários.
            Ia á asilos. E pedia para doces pessoas, depósitos vivos de histórias sinestésicas e de acontecimentos, e ficava horas a fio a pensar sua existência.
            Havia um senhor em especial, que sentava-se sozinho na janela do andar mais alto, o andar em que guardava-se os trabalhos artísticos do asilo. La sentava-se essa pessoa solitária, que só descia ás refeições e de resto ficava no quarto. A menina que esperava ficava curiosa com a imensidão de pensamentos que prendiam uma pessoa á um só lugar. Com a possível decepção que uma vida inteira possa lhe ter proporcionado. Com a estranheza das pessoas. Que deixam umas as outras. Como podemos acabar sozinhos? Nascemos novamente em um mundo solitário onde ninguém nos percebe? Estes questionamentos fizeram com que a menina que esperava subisse ao andar das pinturas. Parada na porta uns instantes, ela sentiu o sentimento do local, respirou o ar e notou a energia diferente.
- Faz sentido que sejamos conscientes? Perguntou ela.
- Não a compreendi - disse o senhor, ainda fixando o horizonte.
- Quer dizer - prosseguia ela, também procurando o céu - assumimos comportamentos frígidos e desprovidos de amor todo o tempo. Estabelecemos razões de ser na sociedade que se justificam por seus fins, e que não chegam á fins nenhum. E passamos toda a vida, processando conscientemente a dor de tudo isso, até que no nos últimos tempos, como observo no senhor, sentimos o pico dessa dor que calados vivenciamos toda a vida. Se somos tão racionais e lógicos como são os animais, qual o objetivo de se saber disso? Vale à pena?
- Minha jovem, acredito eu, que estás muito descrente da vida. Veja este céu. É somente um céu comum. Está limpo, com nuvens de verão. É amplo, plano. Se fosse eu um pássaro, voaria por este céu inteiro. Sentiria o ar preencher mais rápido meus pulmões. Veria cores mais de perto. Porém que prazer teria eu em ser um pássaro se mesmo voando não encontro um sentido no que faço? Se o faço por instinto. Eu por exemplo, não posso voar, mas posso atribuir mil sentidos e significados a este mísero pedaço de céu que contemplo desta sala. O céu que vejo não é o mesmo que vês. Pois eu que sou único em minhas ideias, convicções e vivências, tenho o prazer de modificar minha realidade.
            Desconcertada com a reposta sábia e inesperada de alma tão solitária, a menina que esperava não teve outra escolha se não exteriorizar o que pensava naquele momento.
- Se tudo é tão valioso para o senhor e se um simples pedaço de céu já o ilumina, por que permanece tão sozinho em um mesmo lugar todo o tempo?
- Minha querida - sorriu pacientemente o senhor - o fato de estar eu em um mesmo lugar e sozinho é relativo. Este quarto está cheio de vida á minha percepção. Com tantos quadros e cores, penso que vieram de imaginações que extravasam corpos já nos finais de suas vidas. Mostram a continuidade e a persistência da vida. Minha esposa costumava pintar um quadro toda semana, para exteriorizar o que sentiu nesse tempo. E quando eu sentia que ela não queria conversar, olhava os quadros e compreendia tudo sem perguntar, era sintonia. Á você pode parecer loucura de um velho ensandecido, mas é a verdade. Também ela me ensinou, que o mundo é cheio demais, de pessoas, de objetos. Porém é pobre de vida, de espaço para respirar. Depois de um dia cansativo e sufocante, ela olhava o céu. Dizia-me que ali era um espaço feito para fugas e para encontros. Fuga de lugares cheios, encontrar o silêncio e o vazio. Encontro de sentidos e futuro. Continuidade. Hoje ela não se encontra mais aqui, não sei onde está. Mas sinto que está. E eu, que tranquilamente espero fazer a maior viagem de minha vida, contemplo o que aprendi com alguém tão sábio, que é verdadeiro. Os quadros, nos quais conheço melhor meus companheiros do que conversando com os mesmos, que já cansados de tudo, não têm mais o que dizer. E o céu, no qual encontro paz e continuidade para meu espírito. No céu, contemplo para onde pretendo ir.
            De repente tudo fez sentido, em sua mente confusa e questionadora. A menina que esperava não encontrou palavras para descrever o bem que as palavras do senhor lhe fizeram. Colocou a mão em seu ombro, sorriu, beijou-lhe a face e saiu.
            Nem lhe recorda como saiu do local, nem lembra se corria ou se lentamente caminhava, faria alguma diferença? Segue-se esse caminho que parece ser tão linear todos os dias e não se imagina que as pessoas são capazes de mudar suas convicções, na maioria das vezes pergunta por perguntar, esperando que responda o que já se sabe.
            Quando atravessou o parque do outono naquela tarde, a menina que esperava, não observou os detalhes - seu cérebro fervia de inquietação - pois se tivesse prestado atenção, perceberia que o céu estava diferente aquele dia, que as folhas voavam com uma mágica inexplicável, como que impulsionadas por um energia diferente. Se ela tivesse prestado atenção, saberia que aquele momento marcaria sua vida.
            Quando a menina que esperava passou correndo por aquele parque, não percebeu que quase tropeçou em um músico que deixava a capa de seu bandolim para recolher seu sustento, e que o lenço de lacinhos roxos que usava, caiu dentro da capa. Saiu correndo e não deu nem tempo ao rapaz, que depois de terminada sua música percebeu o lenço.
            Semanas se passaram e a percepção de ambos estranhos também, de maneira diferente. A menina que esperava andava inquieta, procurando mais razões na vida do que usualmente procurava, sentindo-se mais solitária do que usualmente sentia-se. Desejando compartilhar com alguém o que havia compreendido da sabedoria do velho.
            Na escola, sentava-se sozinha nas escadas. Em casa, fazia as refeições olhando de modo vazio. Na rua, que era o lugar no qual mais percebia-se seu brilho, caminhava como se tudo fosse uma grande faixa de neblina. Como se fosse á lugar nenhum. Era o instinto de esperar que as coisas fizessem sempre sentido e que as pessoas á correspondessem que perseguia a menina que esperava. E o que ela não havia entendido, é que ainda não havia compreendido a sabedoria do velho.
            Triste é a pessoa que sempre precisa dos outros pra ser feliz. Triste é aquele que não encontrou a própria essência, pois raras são as pessoas que a procuram na gente. O segredo na convivência está em viver esperando pouco ou quase nada das pessoas, pois estas sempre vão parecer nos dar a mais do que queremos. É ser feliz e supérfluo, ou triste e complexo. Poucas são as pessoas que são complexas e são felizes. Mas a menina que esperava era insistente. O fato de não encontrar lógica na lógica da vida a perturbava.
            Enquanto isso, nosso músico do bandolim estava enigmático e curioso. Quando pegou aquele pequeno lenço, com perfume floral e amadeirado, quis muito saber á quem pertencia tal miniatura. O músico do bandolim gastava horas a imaginar a fisionomia da garota, “com certeza uma pessoa delicada, e de bom gosto”, pensava ele, “deve ter alguma sensibilidade de pensamento também, pelas cores apagadas do lenço”, divagava o músico, “mas absolutamente uma personalidade forte, pois usa um perfume amadeirado”, ele formava certezas em sua mente e praticamente visualizava a garota do lenço.
            Todos os dias o músico do bandolim ia ao parque na esperança que a garota do lenço estivesse lá. Seu lado realista o reprimia, fazendo-o pensar que a garota devia possuir milhões de lenços, e que um não faria a menor diferença.
            O músico do bandolim passou a tocar uma melodia triste em seu instrumento e todo o parque passou a respirar aquele ambiente melancólico. O ambiente dos que querem coisas impossíveis. Encontrar alguém novamente em uma grande cidade, cheia de pessoas iguais cheias de lenços. As pessoas passaram a andar rápido por aquele trecho, a não mais parar para ouvir o músico, pois sua música agora era triste.
            Sem saberem, ambos tornaram-se iguais, ambos seres que sempre esperavam e esperavam, sem saber. Com o breve encontro, passaram a ser os últimos a esperar. Dois iguais separados. E sem saber, esperavam um pelo outro.
            Em um dia frio e triste, desses que as pessoas normais não costumam sair de casa, a menina que esperava foi andar como vinha fazendo, andar pra lugar nenhum. Sem perceber, suas pernas á levaram para o parque. O parque estava sozinho, as pessoas estavam em suas casas aquecendo-se e rezando para o bom Deus, que aquele dia horrível acabasse. Assim, a menina que esperava sentou-se num banco e ficou a observar a camada de neblina que atravessava o parque.
            De repente, a menina que esperava começou a ouvir uma melodia calma e triste, vindo de algum lugar logo a sua frente. A menina que esperava começou a caminhar, caminhar, até que esbarrou na capa do bandolim do Músico do bandolim, e encontrou seus olhos vagueando, procurando por algo. Foi imediato. A menina que esperava olhou para seu lenço e o músico do bandolim sentiu seu perfume, uma lágrima escorreu, de ambos. De repente tudo fazia sentido. O velho havia lhe dado a fórmula perfeita da felicidade, os detalhes da vida, as coisas as quais usualmente as pessoas não prestam atenção, as coisas que as pessoas passam distraídas todos os dias e não dão o verdadeiro valor, pois vivem sempre esperando e esperando, e olhando sempre em frente, sempre em frente, como robôs. Ali estava o detalhe: o músico do bandolim. Ele era um ser que usualmente as pessoas não prestavam a devida atenção, um músico que gostava de lenços, pessoas de perfumes com cheiro de floresta e de sorrisos, mas que ninguém o sabia. As pessoas só estavam preocupadas em andar rápido e colocar seu dinheiro na capa do bandolim, pra dizerem a si mesmas que ajudaram o pobre e solitário músico.
            Agora, a menina que esperava sabia que os detalhes sempre estiveram ali, e quem não via era ela, pois tinha olhos de não ver, tinha olhos de esperar. Agora a menina que esperava, vivia todos os cantos da cidade, sejam eles cinza ou coloridos, ao lado do músico do bandolim, e ganhou muitos lenços diferentes que ele escolhia pra ela.
            A menina que esperava não foi mais feliz, nem foi mais triste. Só foi mais real, pois agora já não era mais a menina que esperava, era a menina que vivia.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Tristeza e Beleza

O que há com a tristeza
parece sempre que a sua essência
é ser bela
O que há com a beleza
parece sempre o desespero, provir dela
O que há com os Homens
que parecem querer
das duas,
uma só fazer.

Olhou, amou, fugiu

Olhou e amou
Sozinha caminhou, longos trilhos
A luz encontrou
Não, não era a luz
Mas ela não sabia
Acreditou
Agarrou o que podia
Um dia acordou
Cinzas na mão tinha
Fugiu sem olhar pra traz
Em outro lugar nasceu
Dizem por ai
que amor, não conhecia.

Maria

Sorria, não viam
Corria, fingiam
Amava, esqueciam
Um dia Maria
cansada de não ser
da janela, suicidou-se
Todos diziam conhecer.

O que será Isso

O que será Isso
Essa coisa disforme
ruídos, enorme
parece-se afogar-se
num mar de insanos
de tratados mundanos
De imbecis sem sentido
O que será Isso
colorida as vezes
se olho, preto e branco
No fim de tarde,
As vezes num banco
Parece surgir.
O que será isso
que a loucura pede
que implora a criança
que não se tem nem lembrança
que excede
mas todo dia se pede
Parece ser sim
A Esperança.

Humano

Pobres humanos
Cansados
Feridos
Pobres mortos-vivos
Sem alma
Sem calma
Vagando ao infinito
Tão diferentes, em essência
De perto tão iguais
tentando
Na loucura uniforme
aparência de normais
Pobre espírito vazio
Triste choro sem motivo
Pobre Ser jogado ao léu
Sem nem lhe perguntarem
Se queria existir
Que animal mais estranho
em quantidade, em tamanho
Em persistência de ser
Que fim lhe aguarda ó humano
perdido,insano
Num mar de semelhantes.