quarta-feira, 31 de outubro de 2012

seca


Choro,
ou tento,
espremer,
gotas secas,
por aquilo que não tem:
seco.
choro pela vida, seca
pela cor, seca
pela alegria, seca
pela saudade, seca
pelos dias,
folhas,
queimadas pelo calor: secas.
mas choro,
sim, e talvez só,
porque não choro,
as lágrimas que deveriam,
mas são:
secas.

oco

Eu tento
ser
o outro lado
do espelho
o oposto,
do rosto,
do gosto.
Se os dias,
sugam,
a cor,
o gosto,
eu crio,
em mim,
pressuposto de sentir.
Assim,
dias em que se sente tão oco,
que até parece pouco,
o que se tentar admirar,
mas é a vida a sugar,
e no espelho,
o oposto do rosto,
resistindo,
a imaginar.

melancolia


Ah, a
melancolia,
as vezes,
solidária,
vem visitar.
Respirar,
sentar,
esquecer,
que a vida segue,
que coisas ficam,
outras não.
Fechar as cortinas do dia,
e ser,
ali,
quieto,
nada importa.
Sentir,
esse tempo que derrete,
pinga,
a vida,
a vida,
a vida.
Há dias que a melancolia não vem.

domingo, 28 de outubro de 2012

a máxima


Ela diz,
quase desmanchando, a acabar:
hoje quero lhe falar. Sobre a vida, sobre a morte. Mal consigo imaginar.
quem importa-se com tanto,
nem me causa muito espanto,
com o intervalo a me guiar, dizia ele, cego a olhar.
Se hoje vou partir,
se amanhã irei ficar,
não é isso que interessa,
meu segredo vou contar.
Quase como ir, quase como sugar,
sua urgência era tanta,
ele pôs-se a escutar:
quero viver, vive comigo.
nada aqui foi real,
tudo que viste, não viu,
não pense,
desliga-se de toda vaidade de relembrar,
o que era,
pois, não foi.
Eis que sempre me enganou?
Nunca como a mim mesma,
não há vida, sem entrega.
hoje sei,
como quem tira os pulmões pra repirar.
Enquanto não deixar,
o medo,
os outros,
toda materialidade,
nunca vais amar.
é assim,
tem que ser,
não se sabe,
o que ganhar,
nunca pensa no retorno,
só em se doar.
hoje,
fraca,
impura,
vivida alma, tenho a lhe entregar,
meu amor é alforria,
liberdade pra sonhar.
É estranho de pensar,
estranho lhe falar,
mais estranho é sentir,
acabara de acordar.
Sê aquilo,
que um dia,
num canto,
sala ou jardim,
sem beleza,
sem dúvida,
sem tristeza,
sê: a verdade que vivi.
Calado, nada além de corpo existindo,
ele não respondia.
 prova que nunca passamos,
triste fim da linha.
se nus,
sem vaidades,
sem a forma da imagem,
sem vontade, pretensão
ainda seremos,
eu,
você,
nós,
o mundo,
a razão de um sonhar?
teremos,
a máxima,
de entregar o que se ama,
e amar o que entregar?

não enxergar


Sabe,
um medo,
sempre,
como agulha que fura a pele,
a ilusão,
essa distância,
toda.
e essa sorte,
de vida,
de ver,
de ouvir,
de saber,
e o que fazer?
bloquear,
fugir,
não saber amar.
esse medo,
um dia,
não enxergar,
nunca mais ouvir,
nem tocar,
um dia,
não acordar.

o sutil


Quantas,
maravilhas,
descobertas,
imagens,
quanta imagem do que não é.
no entanto,
la atrás,
ficou,
ficaram,
a essência,
de toda,
vida,
existência.
não se sabe,
vida,
amor,
ou verdade.
tudo que é fino,
sutil,
bonito,
nos foge a palavra,
ou fugimos?
mas é tanto,
tanto e tanto espaço,
essa máquina,
em fúria,
quem se importa,
com amor,
quando se tem,
modernidade?

o nada


Como seria,
o nada.
quanta ausência,
qual o peso.
nunca reclamar,
do excesso de enxergar,
do excesso de sentir,
do excesso de amar,
pois triste,
é não ter palavras,
é um lugar,
onde,
nem o nada,
é uma ideia.

sábado, 27 de outubro de 2012

deixar


Eu não pedi,
mesmo assim,
a culpa.
sinto,
em cada passo, palavra pensada,
tristeza ou medo: a raiva.
mostrar eu quero,
provar não posso,
então aqui,
fico,
sendo apenas,
a verdade de tudo,
que eu sei em ti,
que não vê em mim,
silêncio.
nada fica de ruim,
por muito.
as vezes,
pequena dor,
então culpar.
mas,
não pedi,
não pediu,
deixar.

de pequena, continua


Ah,
as vezes,
queria viver só de poesia,
de canto, de beleza,
de todas essa pequenas,
bem pequenas.
sensações,
que conhecemos,
você,
eu,
o mundo.
tão bom, olhar o instante,
e sentir tão longo,
quanto a eternidade pode ser,
ah,
doce,
pequena,
insignificante poesia,
passam eras,
se vão pessoas,
derrubam muros,
erguem muralhas,
e você de tão pequena,
continua.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

meu canto, estrada


Eu não quero,
nada,
muito,
visão.
quero só meu canto,
pra pensar,
meu canto pra sentir,
meu canto pra chorar,
o que eu peço,
simples,
só silêncio,
que essas coisas bem aqui,
sei só eu, bem entendo,
então não ligue,
abra lugar,
que agora,
caminhar,
meu lugar é bem ali,
na estrada pra deitar.

linhas


É tão pequeno,
tão bonito,
o trabalho,
dessas finas linhas,
tão pequenas,
mas tanto brilho,
tão bonitas,
insisto em costurar,
lugares pra ficar aqui,
ali,
e tranquilo,
aproveitar.
que é tão raro e tão frágil,
que um dia,
dia oco,
sem pressa,
ou anúncio,
hão de se rasgar,
deixe as linhas,
costurando coisas belas,
sozinhas,
fracas,
costurando sem cessar.

diz o instante


Nessa brisa,
nesse lugar,
encontrei o instante de pensar,
o instante é tão raro,
com urgência, me falar:
lhe diz,
pra sonhar,
pra olhar a vida,
e se perguntar,
vivo?
diga, também,
que medo,
não pode,
ser.
há tanta coragem,
bem ali onde ele sabe,
e tão bela a coragem,
que outros dirão,
é medo.
diz, não acredite,
no que dizem,
os incapazes,
de amar,
há poucos nesse mundo,
sua sorte vai brilhar,
esses olhos,
tão calmos,
muita coisa vão passar.
manter,
ainda,
a coragem,
o sonhar,
um dia,
como tu,
alguém,
vais achar.

Licença


Me tenho o direito,
de pedir licença,
licença da vida,
licença poética.
Que tudo que vale,
é deixado pra traz,
tudo que é frágil,
não tem lugar,
não se vê,
na beleza,
vontade de apostar.
então,
licença,
passo com que penso,
uma pausa na existência,
quero ver, pegar, ser,
aquilo que não puder,
aquilo que não posso.
é no entre que a vida acontece,
entre olhar,
entre sentir,
entre deixar,
deixar ir.
Não me marque no relógio,
esse tempo de descanso,
que a licença é muito pouca,
os instantes se escondem,
e a estrada muito longa.
Assim,
podem ir,
que aqui fico bem,
eu a vida, o sentir,
campo, lua, prosseguir,
aqui eu me encontro,
aqui eu respiro,
colhendo o que deixaram,
todos esses no caminho.

Geração


Quem somos,
nós que vivemos
e respiramos
esse ar que não sabemos,
novos, incertos.
Fomos presenteados:
o caos de todos atrás,
erros,
sonhos,
seja!
o medo,
seguindo por caminhos estranhos,
sendo sonhos que poderíamos?
há que se quebrar as correntes,
e preencher o vazio,
iniciar as marcas,
não somos nada,
não somos,
sombras alheias,
somos nós,
e temos,
muito,
a dizer.

Escorrer

Tão bom que é,
chorar,
ah,
tão doce,
tão...
real.
chorar é viver tanto que escorre.
chorar não é triste.
sei da tristeza,
de nem ser triste,
nem alegre,
ah, essa tristeza,
que silencia a voz,
seca a lágrima,
endurece a alma,
essa tristeza lânguida,
plácida,
estéril.
que o mundo há de querer,
tanto, e com tal força,
 entristecer,
mas não seja triste,
seja triste,
escorra de si mesmo,
água dessa,
que mora em ti,
e espera tanto,
pra sair.

Belo e real


Eu cavo tanto,
tanto procuro eu.
não é que não tenha,
tanto,
muito,
aí o erro:
há muito.
Mas tanto,
tanto pouco.
do pouco da paz,
do pouco do instante,
deve-se,
essencial pra existir,
que esquecer,
esquecer tantas,
imagens,
sonhos,
sons,
gente sem substância,
deve-se,
essencial pra existir,
repirar,
o instante,
o nada,
a solidão,
e só existir,
você e o mundo,
que é tão belo,
e é real.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Amanhã


Ah,
o inacabado,
tem forma tão pura,
de coisa contemplada e não feita,
bonito.
A juventude dá poesia ao que
tenta,
sangra,
mas não é.
Nossas mentes tão velhas,
nossos corpos tão jovens,
permitem,
obra profunda,
do que não saiu da superfície.
Aproveitemos,
esse seria talvez amanhã,
porque o verdadeiro,
Amanhã,
traz os traços,
não do inacabado,
não do quadro guardado,
mas do vazio,
de tudo que poderia ter um lugar,
mas não foi.

Consumido pelo tempo

Vida passou,
vidas passaram,
passa, passando, passou.
Mas há o que passa,
há o que fica,
quem era tu, quem era eu
quando, de repente
ficou,
e passou, também.
isso de nós é como
foto,
pintura,
ou disco,
roído e riscado.
Há o que fica da arte,
consumido pelo tempo.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

luz

A luz invade com força, tanto peso. Sem nem ser convidada. Como é duro ter luz, tudo tão obrigado a se mostrar. Eu, você, o mundo. Todos incapazes e nus perante a vida, a luz. E continuamos, vivos, no entanto. Um corpo só pulsando pulsando, cansado como um grande coração que bombeia o oxigênio do mundo.
Quando a luz vem, há o medo. Porque o escuro é conforto, é vida particular. E então o sol de todos os dias com raios que dizem: é o que não foi, é o que não foi.
Olha-se os dias, o movimento, escancarados, fugindo da luz.
E você diz: há o exagero de viver, o exagero de ser, e de querer fundir nas mãos o amor do mundo.
Nessa claridade toda, não tenho resposta. É que o dia me roubou  o olhar. Mas eu sei, como o tempo e espaço dançam juntos, como a voz se cala, eu sei: o exagero é a verdade na luz. O amor do mundo é uma pena branca que flutua no céu de todos os lugares e ninguém vê.
Mas assim em paz, assim bom. É só a luz, que atravessa os corpos e nos une no ridículo de sentir.

esquecido


Talvez,
assim,
no esquecimento tenha paz.
bom,
sem cor,
vazio sem pensar,
então,
me encho de tudo aquilo,
que não se ousa lembrar,
recebo e guardo,
sem tentar,
sei um dia,
silêncio,
despertar,
tudo que gravei,
se vai,
a paz de esquecer,
a paz de ter ido/sido,
esquecido.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Não vi o caminho


Você,
humano,
tão errada fórmula.
Você,
humano,
sempre cego,
correndo e correndo,
em busca do nada.
Você,
humano,
não sente dor,
não sente pena,
não cai de joelhos.
Você,
humano,
sempre,
justificando,
“e a época que não me deixa”
“são as pessoas que não tive”
“foi o que não vi”.
Ah humano,
você,
triste,
e o mais triste,
é que nem sabe que és.
Você humano,
incapaz de amar.
Hoje eu vi nuvens escuras,
e não vi o caminho.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Docemente desistir


É pena
que o mais frágil
menos vigiado, é
menos cuidado,
tanta vontade de ser,
de crescer como planta ao sol,
mas na penumbra,
risos,
vida,
pode,
docemente desistir.

domingo, 21 de outubro de 2012

cinzas


As vezes deseja-se ser cinzas,
acabadas,
sem cor,
sem gosto,
sem cheiro e sem rosto:
sobras do tempo.
todo dia,
uma vontade de se convencer,
a ser fogo,
queimar na tentativa:
vem!
mas tão tolo esse mundo,
tão fracos que somos,
céticos,
moldados por outros,
que então assim,
não tentamos nos queimar,
nem ao menos mostrar,
que todo o resto é frio e sempre será.
então o cansaço,
cinzas,
o que o tempo não mostrou,
queimou e ninguém viu.

sábado, 20 de outubro de 2012

escondido no encanto


É quase um cansaço,
um desistir,
é quase chorar,
sem poder sentir.
tudo la fora,
brilha tanto e tão mais,
que as vezes o encanto,
é deixado pra traz.
é que ele é pesado,
precisa coragem,
nele há de cavar,
até achar onde ficar,
mas pro bom explorador,
o percurso é o que vale,
sabe que toda a confusão,
que seduz,
nada mais é que ilusão,
a verdade,
o primeiro suspiro de vida,
se encontra no encanto,
que não se vê,
que se teme,
que se foge,
nada mais é,
que,
aquilo que sabes,
e nem consegue dizer.

coração

Livre
com um coração
livre,
novo,
velho,
inesperado,
cansado de esperar.
Ironia,
que um coração
tão novo
tão velho
nunca tenha batido,
de verdade.
Por isso o encanto,
a beleza,
no meio do mundo,
no meio de tudo,
que é sujo,
que é triste,
que mal respira,
esse coração,
escondido,
esperando,
pra bater,
...

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

passarinho

Eu tenho assim um passarinho
que é sorte,
a sorte que eu saiba
a sorte de ser,
assim,
meu,
passarinho.
tem um canto muito raro
e as vezes muito triste
tão pouco canta ele
 dizem até que não existe.
mas me pertence o passarinho
como o vento ás nuvens
como a grama á terra
como os perfumes á flor,
é dever cuidá-lo,
todo dia,
como se fosse o primeiro
pois tem esse pássaro,
medo de amar,
medo de cantar,
medo de não saber,
pra onde voar,
então,
assim,
devagar,
como quem planta e espera,
eu o vejo,
se mostrar,
também sei que o passarinho,
aprendeu a confiar,
o que falta á esse espírito,
é um rio, espelho da vida
pra que se veja,
 e se entenda,
pássaro.
mas passarinho vai crescer,
passarinho vai migrar,
quando souber quem és,
passarinho vai amar.

A menina e o amor


O que fazes aí menina, quieta, fascinada. Deves ir embora, aqui não é teu lugar...
deixa-me ficar, eu vim de longe, só pra observar...
eu vaguei do baixo e do alto
e todas as cores eu vi
eu quase ceguei de luz
mas da escuridão nasci
deixa-me olhar mais um pouco
porque disso nunca sofri
a curiosidade é que me mata
aquilo que não aprendi
que é isso que todos dizem
mas que eu só faço observar...
Não podes ver, que ver não entende. Sentir não sente, és menina.
Sentir, não sinto, corri o mundo mas nunca alcancei
preciso ver
pra sonhar
pra descrever
pra pensar saber
o amor que dizem por aí.

confusão


Sei só
ser assim

só assim
o que eu encontro
o que encanto
só acha quem vê na confusão
construo, assim
uma ponte em mim
uma certeza
uma oração
assim, quase uma religião
se te achas por aqui
se encontra teu lugar,
é que então tinha razão,
é você então,
o motivo,
a essência,
a, enfim, compreensão,
dessa minha/tua
confusão.

todo seu


Me desculpe
é que assim
diferente
mente
estranho
não sei ser
e se me diz
o que pensava
queria
imaginava
ainda assim,
surpresa há de ser
eu calo
travo
só sei dizer
o que mereces de verdade
de todo meu ser
assim:
nesses verso, todo seu, você,
todo meu.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

nossos sonhos


Nossa vida é doce
a minha
a tua
ao menos a noite
algumas
que é quando sonhamos
não dizemos
não pensamos
respiramos
e sonhamos
te dou um sonho
não espero ganhar,
outro,
dois,
todos.
um dia,
talvez,
andaremos
mãos dadas
a confundir esquinas com sonhos.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

é poesia


Vês, não é que sou triste,
também não sou feliz,
sou a passagem lenta do tempo,
o ar no instante que não existe.
Vês, não é que sou só,
também não há muitos,
sou o riso do canto da estrada que ninguém vai,
a lágrima na chuva ácida.
Vês, não é que amei,
também não sou gelo,
sou o fogo que inflama e vira cinza,
sou o fogo e a cinza que se abraçam juntos em ti.
não é tristeza,
amor,
alegria,
ou solidão .
É  poesia.

domingo, 14 de outubro de 2012

Ainda seremos


Você abre os seus braços
e estica
freneticamente suas mãos
mas já se foi
as vezes é como o vento
vai
mas pode voltar
as vezes é um papel voando
passa por você
pra nunca mais
é que não sabe
ninguém,
aliás
que tem que ser assim
escondido
da vida
e do pensar
pra que não saibas agora
afinal somos tão jovens
e mesmo quando velhos,
ainda seremos.

Vida moderna


Vida moderna nos espreita
aqui
no bar
na rua
no sorrisos
na falta dele
na busca
sedenta
cega
pelo que?
pelo amor?
felicidade?
vida moderna nos espreita
a mim
a você
vida moderna te espera,
sua companhia.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

A sombra, a luz

Aonde vais? Nem te vi, nem teu caminho, e já vai assim pra longe...
Fiquei um tempo, não te lembras? Te vi.
Não chamaste a atenção? O que fazias aqui? O que tens nas mãos?
Não sou daqui. Sou visitante, o que tenho recebi.
Não vais já, então, não percebi tua invasão.
Não te preocupes, talvez eu volte, a vida não é linha, é espiral,
levo de ti mais do que percebes,
mas não sou daqui,
o que busco não tens,
o que precisas?
é alimento,
há que sempre não se conformar, e ir buscar noutro lugar,
Por que a pressa? Fica, as vezes me sinto só,
o que sente é só a falta da tua presença,
é que não és inteiro ainda,
nem te conheces,
mas um dia então,
acordarás,
e a luz pode te cegar,
o que vês agora é só a sombra,
a sua, em demasia,
mas também a de minha partida,
quando houver tua transformação,
não te preocupes,
pensa, chama,
venho lhe dar a mão.

Filho do instante

Não deixai. Não deixai que te tomes conta. Nunca. Repete: como oração. Não serei mais um, não serei mais um.
Descobre o instante, apodera-se dele. Perscruta e sente. Espera e respira. Há o instante.
Não há sentido na felicidade, não existe. Há o instante.
É sempre a brecha na roda da vida. Eterno fiar.
Então, atento, sempre. É o sentir.
O sentir importa.
Não a felicidade,
Não o possuir,
Lhe foi dado, queres ou não?
Uma capacidade de respirar as cores e pensar mil coisas delas. Não abras mão.
A vida vai fiar, fiar, fiar, até não ouvires som nenhum. Até que só veja o silêncio.
Não te enganes. É só o movimento te conduzindo pra espiral, pro fim.
Não há fim. Há eternidade. Há o instante.
Fecha os olhos talvez,
desprende-se da vaidade de falar,
esqueça, esquecendo-se se vai, o pensar.
Mas se abra, como o coração do mundo,
grande, feio, pesado,
abre e sente,
pulsa , pulsa,
até que acordes, outro
filho do instante.