sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

pistas


Deixa pistas
não caminhos,
distante,
sutil,
quer ser encontrado.
o mundo,
o protesto:
eco distante.
Quando se tem, tem-se tudo.
não é a graça de viver:
sim a vida, apenas,
todo resto banal.
nesse canto cuido e olho,
mesmo que cega.
Pois há vida,
e há vida,
o pequeno pouco,
o descompromissar,
diz,
Se é viver,
ou viver.
digo que vivo.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

só mais um


Há outros e piores:
desses eu sei,
desses provei, aquilo que geralmente se cospe.

Um drama nunca grande perto d’outro.
assim é bom,
o egoísmo competir com o outro,
sempre mais fodido.

E ganhar,
o prêmio:
um copo grande e amargo,
a glória não ser único,
a quem a vida chutou.

É tudo exagero,
estilismo hiperbólico,
vai saber,  assim tudo inventado?
a gente inventa dor, cor,
tudo pra fechar,
um círculo,
nosso sabor.

never keeping with me


Recolhe e se vai
recolhe e se vai
no labirinto
caminhos,
uns de pedra chutar,
outros pedra deixar.
parar,
nunca há,
parar é pensar.
pedra ganhada ou pedra chutada:
recolhe e vai.

como renascem os velhos


Pois de gosto
cor
e cheiro,
eram novos como folhas,
na primavera,
nascidas de lugar nenhum,
motivo algum.

carregam em si toda a senilidade e o peso de
ventos assim,
que despedaçaram,
outros outonos.

mas tão folha flor,
tão inesperado,
como nascer.

Assim então todos os ventos do inverno,
nada eram,
que buracos em comum,
poços profundos.
se afundavam ali as vezes,
sozinhos,
juntos também.

todo ar,
respirado como o primeiro,
começavam a vida,
dois livros esburacados,
esperando escrever.
sabiam como disso se sabe: se vive, ou se morre.

das mãos novas e velhas, também o medo
normal quando vê diante a vida pronta ali.
Então os desenganos,
as covardias.
tão novos na arte de amar, tão velhos na de sofrer.
a incerteza vinha como um meio de morte na vida,
quando se vive o peso da estagnação: se anda ou volta atrás.
afundar e voltar todos os dias do próprio poço.

mas tão certo como a mão que corre a linha no livro é isso:
quando se há de escrever,
quando são caneta e papel, um
não se vê,
os buracos da folha,
as tantas idades da folha.
se veem ali, história,
nascimento,
o ar gelado de serem novos e iguais pra começar.

domingo, 2 de dezembro de 2012

ultimo fio


Rouco
rouco
sem voz,
como um condenado:
o limite.
cada um tem de si o mais fundo de sua terra,
Se cavar.
que essa inexistência quente e silenciosa
o resultado do núcleo de si,
pra quem foi.
sem voz,
como se o próprio corpo:
livrar do que não vai usar.
viver o começo da vida,
e sentir o gosto igual,
o mesmo cansaço,
de quem espera desatar o ultimo fio.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

caleidoscópio


Semanas
dias
anos
o tempo
se acumulou ou fui só eu?

Essa chuva,
essa música,
não sei de mais nada,
não pergunte.

Na janela vejo corpos
dedos
luzes,
caem

como uma lente
passando
lugares que não existem mais
fantasmas
que deixei pra traz

noites
que a vida te visita
a vista bonita
nada exige mais que existir.

Você não precisa


Você não precisa
aqui está.
aqui está.
se quer mais:
aqui está.
aqui está.

deve pagar,
por sua fina casca
reluzente,
deve pagar,
o que te faz sentir ausente.

Você não precisa,
aqui está.
você tem amigos,
comida,
sexo,
tem até vida.

deve pagar,
se reclamar,
vai precisar,
mais do que impulso,
paciência pra gastar.

Você não precisa.
fique onde está.
você não precisa.
se não se vende não há.

você não precisa,
do que te faz pensar,
o que te faz chorar,
a falta do que
tudo vai acabar.

just smile


De tudo que se fala ou diz
uma totalidade
desnecessária
calem-se
parem os passos
entrem
cavem:
si mesmos
todos entorpecidos da droga do esquecimento,
da ilusão.
os que não falam
são deixados
os que no canto dizem:
contrário,
são deixados.
que não se enlatem por livre vontade,
tristes criaturas,
que riem como aquele que vai morrer disso:
felicidade é rir,
de si,
de mim.
felicidade é sentir-se
prostrado
amarrado
pela própria sorte,
e brindar com um brilhante e sonoro:
riso.
dizer ao mundo:
rio.
o tolo que toda noite sente-se tão vazio,
com um grande,
um grande nada.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

o nome é o peso, o peso não tem nome

Mais curvados,
sempre mais curvados,
como quem carrega o mundo:
somos o peso dos outros nosso peso são os outros.
carregamos a pluma do que querem,
a pluma do que sentem,
como insuportável percurso,
numa curva jogamos no rio.
mas o peso não é esse,
o peso sempre vai estar.
o que deixou,
a ausência torna-se a insuportável leveza do ser,
a leveza torna-se a insuportável ausência do ser,
a leveza e a ausência tornam-se insuportável peso do ser.
a carga está ali,
não vê?
naquele canto que visita as vezes,
quando vida e existência não são a mesma coisa.
sem exceção,
nos arrastamos.
pegue uma pílula,
tome outra:
temos de todas as cores,
temos o computador a televisão,
você pode sonhar, a pílula que quiser.
o anestesiado não sente a própria morte.
estamos,
existindo como peixes,
peixes se enchem até morrer,
peixes não sentem dor.

voz


Como uma voz no vento
uma voz no vento.
sem corpo,
sem ser,
sem nada.
de pensar,
ecoar,
o que fique sem incomodar.
todo o resto
pesa como ferro
pesa como ferro nas costas noite fria.
por demasia uns na vida dos outros:
dos pesos pegando, dos pesos doando.
engasgando-os.
voz no vento,
no vento hoje aqui,
amanhã não mais,
perdido,
sem noção de espaço,
eterno que não sente o tempo.
uma voz no vento.
sem corpo,
sem ser,
sem nada.

domingo, 25 de novembro de 2012

nada mais sendo

Desfazer
tudo, em tudo
que lembre que é
que pode
ramificar.
ver brotar
geração
de tudo que foi
pisado.
sem ar
sem sol.
cresceu por puro desprezo
sem o mais com que ser,
durar,
desperdício.
que sejamos,
pois
toda a criação podre
vivendo
ocupando espaço,
nada mais sendo.

morremos

Tudo
do que é vivo:
mas já mortos
essa matéria cravada
se arrastando,
se arrastando.
todos os sonhos:
mas o que é morto é cinza,
sempre
tudo tentar
despedaçar no farelo amargo,
nosso próprio ópio.
juntos:
nem um, nem meio,
desfazendo-nos em pura sujeira.
fomos um dia,
quando nem sabíamos,
tudo da alegria.
mas morremos,
antes de ser,
o que talvez seremos

sábado, 24 de novembro de 2012

maratona


A vida
um emaranhado,
de vidas,
desligadas e despreocupadas,
umas com as outras
preocupadas com si mesmas.

essa mania ocidental,
de ver a linha em tudo...
sempre em frente,
porque de repende,
o começo melhor que o fim.
estão vivendo,
tem seus medos,
seus segredos, ninguém se importa.
amigos já tem amigos de amigos,
e a família não tem você.
e,
bem,
você  tem telas, e imagens.

tentam
mas não são reais:
não pode tocá-las.
então vai e vai, e sempre...vai.

se numa corrida para:  crash.
você não sabe porque porquem corre
mas corre,
só e pra onde,
imagina valer.

esqueceu o caminho,
mas não os buracos,
tropeça na milha de traz,
como pode?

na linha da vida,
(essa mania ocidental,
de ver a linha em tudo...)
você vai para o tempo
como o tempo não vai para você
ele não existe
o relógio
os milhões de sonhos e coisas colocados nele:
foram inventados,
por alguém infeliz.

 apertamos o passo, quebramos o relógio:
comprimimos o tempo,
rasgamos o espaço,
mas é só pra esquecer,
que há, um fim,
ele não é
linha de chegada
prêmio:
mais tempo pra correr.

ele é um buraco,
você,
o tempo,
o espaço,
nada.


quinta-feira, 22 de novembro de 2012

dessacralizado


Tudo era sacralizado,
nada mais agora:
simples frágil doente,
mais e mais pó,
cinza e frio.
numa lenta agonizante diversão,
ir pedaço á pedaço:
no espírito o lago vazio da falta,
os heróis foram jogados,
bonecos despedaçados.
o superego rachado ao meio:
todos os animais dançam, cantam,
e pedem sempre mais.
o corpo então,
viagem variável, vertigem:
rasgando o bom e o belo,
estética do desprezo,
melhor.
nada mais sagrado, do que o que não é.
cada marca pungente,
uma vitória do que acaba,
aqui.
que até na imagem espetáculo se ama:
o morto vivo, sentimental.
desse spleen,
restou em mim,
essa cinza de todo dia.

disdain it all


Deixar todos
por esperar,
o que pensam,
contrariar.
não ir,
faltar,
falar: contrariar.
um rasgo da boa promessa,
no meu corpo,
no meu olho também.
tenho a doença que todos temos,
tenho a doença que todos temos,
tenho a doença que todos temos,
um dia se vão,
por desprezo no olhar.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

volver


Não luto contra a gravidade,
a decadência.
gosto do gosto,
do amargo
do que cada dia menos:
caindo
caindo.
quem sou pra abraçar o caminho contrário
imortal.
sigo só o que ganhei quando nasci:
muerte de los hijos
todos pertencemos,
todos iremos,
pro mesmo lugar,
volver.

sábado, 17 de novembro de 2012

deixo


Homeopaticamente,
de lugar a lugar
pessoa a pessoa:
deixou o diferente:
deixo.
inconstância do estranho,
o comum dá uma ânsia,
sonolência torpe.
eu deixo,
não paro,
disparo daqui, dali.
todo dia como se fosse o ultimo,
apenas esperando:
que se forme na acomodação do igual.
então me vou,
se ficar,
existo sem sentir,
vivo sem pensar.

gravidade


Sinto como
se a gravidade de repente:
fizesse mais efeito em mim,
a vertigem, a cabeça rodando,
tudo gira pro fim.

As vezes a vida mostra como se
não tivesse asas,
nem nada pra prender.
então se pode cair,
livremente.

Sem os anos,
os pais,
sem nada.
as palavras são como um ultimo adeus marginal.

entorpecer


Encontra-se
formas alternativas de entorpecer
a existência quente e pesada,
a eterna tarde da vida:
senão as drogas,
 a música,
o grito desesperado das páginas de alguém.
senão existir comprido demais,
o tempo sempre lá:
na frente,
intocado.
entorpecer pra correr o tempo antes dele mesmo,
pegar e brincar com o tempo como se estica ou arrebenta,
um elástico.
nós desprezamos o tempo,
nós desprezamos o kitsch barato da vida,
nós vivemos na margem das tardes,
entorpecendo.

fino frágil


Por traz de todo o insólito aqui:
botão de lótus, de ti em mim,
do projeto de sentir o simples:
nós dois.
que tudo é demais ideias,
tristezas,
vontades.
sobrevivemos é daquilo que fica na beira,
um sorriso querendo abraçar.
que a vida o mar o céu sejam um só:
assim quero que seja de mim em ti,
de ti em mim,
o fino frágil,
o que é deixado,
e ninguém vê.

vertigem


Nessa janela
o mundo
vertigem:
que talvez não deva olhar por muito
quase uma vontade de cair,
cair?
voar,
no ar intrépido,
o fundo,
sonhar.
eis que assim acordada:
nessa ponta,
a confusão:
vida e morte tão perto,
um descuidar.
eis que deixar,
pois nessa abertura,
parece tanta vida,
tanto deixar falar,
existir,
que todo ser será
aquilo que tem,
que puder,
que amar,
ou não amar:
eis o impossível de sonhar.
deixar,
vertigem vai vagar.

calos


São experiências,
esses dedos que calejo com cinzas,
com poemas:
do mesmo modo que calejo minha alma,
com todos esses que passam,
e esses que ainda não passaram.
são os calos daqueles que trabalham na vida,
e não por ela.
quero,
calos como cada signo revestido:
símbolo e veracidade,
não passível de estudo,
ou sentido conforme os anos.
não calos que se expliquem por si mesmos:
calos que sejam a vida renegada dos cantos.
que tenho as mãos ainda limpas,
sei por onde ir,
e por onde ficar,
e assim deixar,
calos subexistir.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

a menos


Assim, em cada
cigarro,
no trago,
no gole,
no suspiro desse ar maldito:
contemplo o infinito.
cada ir e vir,
um dia a menos,
dessa vida,
comprida,
em demasia.
não tenho pressa não,
nem necessidade,
de deixar nesse chão,
semente saudável.
talvez seja um estágio,
que tenho por cumprir.
mas enquanto isso,
nesse ir e vir,
um dia a menos,
dessa vida,
comprida,
em demasia.

de mim á mim

quero assim,
rasgar esse corpo condição que tenho,
e ser mais:
vestir de mim á mim a sujeira que me impede:
o ser por traz do ser.
experimentar do masculino,
o gosto caleidoscópico por todos os corpos,
e sensações.
do feminino o detalhe do detalhes dos olhos piscando,
o segundo que parou.
vou abrir meu corpo alma, confrontar a dualidade,
de me ter.
e vou ser:
música,
cheiro,
movimento.
não ter:
o papel de ter o papel,
no mundo revestido do social profundo.
 se tiver que ter,
na transformação de mim á mim,
a marginal de não fazer sentido,
eu grito:
que venham á mim,
os que não tem medo,
se vão que passem,
sou uma pergunta,
de mim á mim,
desvendo o segredo.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

no fim sem máscara


A todos 7 faces,
a todos 7 faces,
7 facas,
7 faces cortadas.
quero, a ti, mostrar uma/todas só,
você,
que eu escolhi,
não sei porque,
que eu escolhi sem escolher.
como um cemitério,
um jardim,
um livro,
um corpo aberto.
respirar tudo que há,
sem tampar.
que tenha medo,
delírio,
desejo
amor.
porque há de sempre sobrar o mal estar da intimidade,
mas o enigma que fica,
prende,
purifica.

imperfeito


Levantar voo,
como um animal solene,
queimar em si,
e não temer a queda livre.
ver no imperfeito,
uma doçura do medo,
de não desistir.
amar o imperfeito,
porque não se ama,
andar,
caminho contrário,
do sucesso casa, esposa, carro na garagem.
reproduzir,
amor e verdade,
não filhos, vaidade.
ver no imperfeito,
o que não quis o mundo,
por medo da defesa,
arisco, profundo.
sincera,
verídica atuação,
doar de si,
desistir da glória solitária:
pulsar mente, mãos, coração.

genuíno


Mundo,
cego de perceber,
a fraqueza de não amar,
a fraqueza do mundo.
que é nascer do fruto maduro de existir,
essa possibilidade:
ver os vazios,
pontos escuros,
o frágil cravado,
e amar, ainda e mais, assim.
que o grande,
perfeito e saudável,
é a ilusão,
o nunca precisar.
o genuíno,
é olhar,
pra impossibilidade do outro,
e quere ficar.
é um eterno aprender,
sempre esconder,
que como no espelho se vê:
o feio, doente,
que deseja expulsar,
como hei de abrigar,
outro assim aqui?
como há de querer,
isso, alguém, de mim?
as partes,
quebradas,
então,
continuam assim,
desprezadas,
que no mundo fraco,
que se ama,
mas não por completo.
não vê o fracasso,
se vê ignora,
ama-se o bom,
o altivo e opaco.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

pro mesmo lugar


Como inseto na luz:
seguimos o caos,
porque soa assim,
brilha assim,
tão bonito.
todo o acaso da falta:
de início,
não estava,
continua-se,
não falava,
e no acaso,
frio um dia:
feliz demais pra ver qualquer um.
mas o caos quando vem,
não vê a ordem:
só cria.
não sabe quando,
nem onde
quando o relógio marcou horas,
segundos, paralisou  o tempo do mundo,
e todo o acaso da falta se fez:
um só a girar,
um laço do porque, a amarrar,
e a magia de lembrar,
todo lugar,
que o acaso jogou,
e a distração não deixou,
que se olhasse.
mas quem pode,
com o caos.
na lâmpada do mundo,
que veem, nem o brilho, nem o fundo,
olhamos, sem poder falar.
cada um,
achando o contrário do contrário,
um sorrindo,
outro negando,
ambos indo,
sem saber,
pro mesmo lugar.

palavra da vez


Que talvez,
seja,
assim,
como um pássaro,
que vai acompanhar.
que vai saber,
quando recuar,
quando cantar,
quando pousar:
nunca deixar.
há que se implorar,
que se vá,
que não seja como o mundo:
que não me venda ao meu cansaço,
a minha vaidade.
e continue,
no silêncio,
desse voo,
sempre em queda livre,
caindo direto:
ao centro de tudo que vai emanar,
pra pode antecipar,
a palavra da vez.

coisas que


Há coisas que,
não entendo eu,
não vê, você.
que só sinto aqui,
no resto de lugar bom,
no fundo,
que não vê,
no escuro da superfície.
e vai dizer,
o quão impossível é viver,
é querer,
nunca é poder.
já vi,
tanto disso,
não vou, provar o contrário,
deixa que o imaginário um dia mostra,
tem coisas que se amarram não sei onde,
não porque,
pra sempre.

palhaço do mundo


Um dia,
quem sabe,
a glória:
palhaço do mundo,
ridículo, no fundo.
ser tudo que não se é,
dizer o que não pode.
nada a segurar,
amar,
todos,
que por paredes afastamos.
nunca levar,
e usar:
ressentimentos como defesas.
ver beleza,
até onde não tem.
quão bom,
deixar tudo torto,
o atado solto,
a vida por fazer.
nada,
nada impedir:
amanhã não existe.
Um dia,
quem sabe,
a glória:
palhaço do mundo,
ridículo, no fundo,
rir,
até não poder.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

numa caixa, repousar


Não há de fato,
o que falar:
que quando vemos assim,
não vemos o mundo,
vemos que o mundo deveria,
ver,
sentir,
saber.
por isso,
compreender,
tranquilo como um barco de papel,
jogado no mar,
que não há,
mesmo,
o que falar,
tudo é perspectiva,
fresta pra se olhar.
só movemos nossos braços,
talvez as próprias pernas,
não movemos as linhas,
dentro,
a máquina,
do tempo.
mas não há se preocupar,
não há quem culpar.
há sempre onde deixar:
tirar os olhos,
e não ver,
o que não se pode provar,
desistir e guardar,
os olhos que tão velhos,
numa caixar, repousar.

o que é eterno dorme


Acabou,
deixar ir.
o que é:
novo,
bem assim,
não reconheço.
na vida,
não se faz por provar,
o futuro,
o que se é,
o que será:
todos temos olhos.
hoje, deuses dos nossos próprios destinos,
seguimos,
e não temos direito,
sobre ninguém.
só resta,
ternura,
e a vontade:
que converta-se de ti em ti mesmo,
mas,
que irradie,
que brilhe.
um dia,
que nem vou saber,
aqui estarei?
um dia,
espelho:
vai ver,
tudo aquilo que sempre foi,
todo o poder,
vai trocar de pele,
tudo que é sólido,
agora,
vai desmanchar no ar.
só fica,
o que é eterno.
mas há que dormir,
agora,
e ver só palavras.
o segredo,
escondido,
dorme também.

domingo, 11 de novembro de 2012

peso insuportável de uma pluma


Penso,
que estamos presos por uma sutil dependência:
a irrelevância de se saber,
sempre onde encontrar,
então não se importar.
não deixo, assim
de inquietar,
pensamento,
o que seria,
dessa linha atada,
se perdesse o encontrar.
sumir da imagem,
da rede fina e desligada de emoção.
talvez  descobriria,
frágil ou forte essa linha,
pra desespero procurar:
onde estará?
ou nem perceber que se foi,
sem avisar.

cidade de fogo


Essa cidade pega fogo,
é na alma dessas diferenças,
dessa desconcentração,
essa cidade pega fogo:
é nas ruas, fim de tarde,
doce solidão.
Essa cidade pega fogo,
é esse céu tão aberto,
é essa cor colorau,
que se junta ás luzes,
parece incendiar,
farol.
Essa cidade pega fogo,
terra tão desconhecida,
tão forte,
tão sofrida,
de lutas recentes,
de gente brava,
sangue ainda quente.

menininha


Tão nova,
tão velha,
vestindo a vida,
tudo que fizeram.
tudo que disseram.
episódio,
dia a dia,
tudo foi.
mas tudo foi:
tudo fez, hoje é.
as vezes,
submerge,
quase um pedaçinho,
dando adeus:
menininha,
sozinha,
desobediente,
distraída do mundo,
perdida no fundo.
lá vai ela,
a mãozinha balançando,
tá voltando,
de onde não sai mais.
episódio,
dia a dia,
tudo foi.
não se morre de peso do mundo.
continua-se, por arrastar.
as vezes vem,
a menina a consolar,
olha alguém diz:
dá a mão,
chama pra andar,
esquece, deixa amar.
rodando, rodando,
tudo até parece dourado,
mas é a menininha,
o fresco,
o passado,
que submerge lembrar.

se não quem


Eu não sei,
se é um foco cego,
como um artifício bom,
pra não perceber,
tudo quando é lança apontada,
pedra jogada,
buraco no caminho.
sinto às vezes,
microenergia dessa barreira,
dizendo:
deveria preocupar.
não como tudo que vai,
 nem como tudo que fica:
eu fico, eu vou.
é tudo que posso fazer,
tudo quanto posso ser,
queria como que parar,
sair do quadrado,
da vida,
e perguntar:
é isso, ta certo?
quem vai responder,
é tudo uma vez,
jogada, erro, acerto:
nunca treino.
o que salva,
o olhar,
o pequeno,
que se não o simples,
quem vai aliviar,
quem vai acreditar,
na recompensa depois,
na planta crescendo,
eles sorrindo,
paz nascendo?

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

o espelho do mundo


Dias,
que a indignação,
é a única certeza.
que vontade,
de poder que tudo seja bom,
que não se acumule,
o peso dos dias,
e o peso de tudo que se vê.
vontade,
de viver assim,
num mundo quietinho.
em que,
não pego pra mim,
o que não posso carregar,
sorrir assim, sem pensar.
olhar,
pra enviar,
tudo de mistério,
e singelo,
o sutil,
e o simples:
sem precisar dizer.
amar sem porquê,
e nunca achar,
o porquê de amar.


Dias,
em que a indignação,
é a única certeza.
tudo se acumula,
e todos tem,
o que não precisam.
lojas pra sorrir,
cartões pra florir,
palavras pra não se ouvir.
E tudo é motivo,
pra odiar,
pra afastar,
pra deixar,
se enganar.
Um eu tão grande,
tanta vaidade,
que só se reina,
a incapacidade.
porque não consegue,
nunca vai entender,
que nem tudo tem porquê.
e assim vão,
e não vão amar.
e só vão olhar,
esse outro mundo,
onde não há,
como quantificar,
o que não tem porquê,
o porquê de amar.

luzinha no peito


Tudo assim,
as vezes,
me é estranho,
como andam,
como falam,
como guardam:
depois pegam,
e ainda assim falta.
os rodeios que fazem,
pra sentir,
pra correr,
pra seguir,
pra sofrer.
não sei,
talvez tenha
espírito assim,
de quem nasce agora:
o simples é bom,
natural.
simples é sorrir,
simples é chorar,
simples ajudar,
simples amar.
não precisa,
muro,
banco,
roupa,
carro ou jornal,
não preciso,
de vestir em mim
ideias e certezas
o simples,
é sempre o certo,
luzinha que acende no peito,
sorrir de ver o céu,
dormir,
e sentir que o travesseiro,
é a própria mente,
sentindo o bem,
de ser, ter, fazer, o bem.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

isso daqui


Você que passa,
se vai passar,
passe.
isso daqui já é velho,
poeira já encobriu,
isso daqui já conforta,
muito do que existiu.
isso daqui já é de casa,
é costume ser assim,
o estranho que vê,
não é estranho pra mim.
portanto se fere ou dá medo,
passe logo de vez,
isso daqui já se cansa,
de esconder a palidez.
tudo isso daqui,
há muito já encontrou lugar,
onde está se acomodou,
pra sempre há de ficar,
então vá passando,
que não interessa mudar,
isso daqui não lembra mais,
o que é não aceitar,
isso daqui de ser estranho,
isso daqui de sonhar.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

aprender


Aprender,
compreender,
mudar,
executar
executar
executar.
se aprende quando,
Se compreende,
ou se vê,
e entende,
não quer mudar?
talvez,
só levamos,
aquilo que nos encaixa bem,
que não nos faz tornar,
ou absorver,
e sim aquilo que:
externamente,
se situa, no que,
internamente:
flutua.

não

Sei, eu,
de mim,
dessa alma boa e branca,
não ser meu fim.
no presente que entrego,
no pouco que pouco peço,
sempre a encher de todo,
o egoísmo sem esperança.
que não sei não dividir,
o que vejo,
só, importa.
não sei não tomar de si,
o que de repente,
me toca.
assim,
até que o sopro dê um fim,
no reflexo do espelho,
belo, forte e bom,
que não faz parte de mim.

existir


Há que se encontrar,
na vida,
motivação.
há mesmo?
tão necessário se faz?
minha vida vivo na beira,
na linha,
no inacabado,
de tudo que é fugaz,
isso de que falam,
não vi,
nem me apraz,
que o sutil,
é a fronteira,
entre a vida,
entrevida.
não há nisso,
pouca coisa,
também pode se perder,
as vezes o que brilha nisso,
é tudo que há de morrer,
enquanto puderem esses dedos,
enquanto verem esses olhos,
enquanto a busca vagar,
na linha vou me encontrando,
na beira me perco, talvez,
mas não há motivo,
nem no mundo, canção,
que me dê mais,
ou alguma emoção,
do que sente ou fala isso aqui,
nessa linha, há acabar.

poema oração


Que eu fale,
e que não se ouça.
que eu seja,
e não exija.
que eu tenha,
e não saiba.
que eu ache,
mas sempre busque.
que eu veja,
e não deseje.
que eu doe,
e não espere.
que eu transforme assim,
de mim em mim mesma,
em algo melhor e simples,
que isso não me estranhe,
que isso não peça lugar,
que isso não se acomode,
que isso veja no que tem,
estrada pra caminhar.

borboleta


O peso de ser,
borboleta,
num mundo de bicho,
grande.
há que nunca se cansar,
de voar,
nunca,
estagnar:
o perigo de ficar,
quando pegam, borboleta,
perde as asas,
definhar.
tem dia,
borboleta  se esforçar,
o ar tão pesado,
parece ter que atravessar.
entender a borboleta,
é arte,
essa assim como a vida.
borboleta,
leve,
livre,
há de ver,
se extasiar,
há, contudo,
libertar,
borboleta não pertence,
borboleta nasce e morre,
sem pra gente se doar.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

não sei porque

Deixa,
que assim somos,
mesmo:
tiro no escuro.
saber, só,
se o erro,
ou acerto,
foi o necessário:
ninguém mais.
que o peso e o papel,
de ser,
de ter,
olhos fechados e apostar,
seguir estrada,
de estrela,
que nem se sabe o nome,
talvez seja pra ser,
assim,
talvez não.
saber, só,
se o erro,
ou acerto,
foi o necessário:
ninguém mais.
estou pra dizer,
que a magia ta nessa estrada,
longa,
pouco iluminada,
que se segue não sei porque.

deixa haver


Há que as vezes,
também dar-se,
paz,
esquecer.
que lembrar,
sempre,
é querer,
reviver,
então assim olho fechado,
mente vaga:
nada,
que é tanto,
sem descanso.
pedir:
pausa,
desistir,
de ser,
de querer,
deixa que,
essa luta,
não quero vencer,
deixa haver,
engano,
deixa pensar:
não é.
ninguém compra,
a paz de esquecer.

domingo, 4 de novembro de 2012

paz de pensar


A paz,
é, por ainda,
a paz de imaginar,
como a paz será.
ver sorrir,
com certeza da
certeza da vida:
deixa guiar,
assim, entender,
sem precisar falar,
tudo no seu devido lugar:
meu pai sem saber,
se é viver ou sonhar,
minha mãe,
tudo que deu:
a lhe dar.
meu irmão,
nada a cobrar,
a vida dá,
sem esperar,
os seus,
assim também,
com o melhor lugar da vida,
sem pensar no fim.
e essa,
talvez,
seria,
a paz na vida,
a calma na terra,
nossas mãos,
seguindo,
em frente,
paradas,
em que lugar?
não há,
necessidade,
fixar,
o que é fixo não se vê:
é uma linha dourada,
que por dentro amarrou,
a vida,
a morte,
o futuro,
 e ficou,
só assim,
a paz.
essa paz que eu não sei,
essa paz tão boa,
a paz de pensar,
uma paz em mim.

a se perder

Houve um dia assim,
como num tempo que se imagina,
ido, finito.
quando o ar gira em uma só direção:
o vento sopra mensagens,
borboletas vão pra luz,
foi-se.
num dia assim sem espetáculo,
nada na TV,
possibilidades:
é o que tem, fique.
mas assim,
como todas as belas histórias,
surpresa,
quem espera nunca alcança,
e na distração:
sempre estive aqui.
e a música não parou de tocar,
e com ela cada nota:
a magia,
a vida,
o medo de perguntar:
o que vem depois?
porque sempre assim,
um desafio.
há o medo,
a curiosidade,
vontade,
de abrir as cortinas:
voar.
mas assim tem que ser,
tem?
pois ali,
janela,
esse céu de nuvens, chuva, tempestade,
parece convidar pra uma viagem.
fim da história?
continuidade,
que vale de pensar,
um sonhador,
sempre no que será,
um corpo pra abraçar,
lágrima pra derrubar,
sorriso pra curar,
alma pra lhe dar,
continuidade,
que vale de pensar,
um sonhador,
sempre no que será,
desafia a coragem,
esquece passagem,
não pede: vai,
porque não há magia,
que acabe no que foi,
magia é como caos,
não começa,
não termina,
sempre ali,
num canto,
um dia,
se percebe,
roda, gira,
a se perder,
um,
a pertencer.


um dia


Que dia, esse
que céu,
que nuvens,
que languidez.
que finas,
que frágeis essas palavras,
e que bonitas,
fazem,
assim,
par perfeito com esse dia,
ah mas que pesada,
a antecipação,
que o dia há de ir,
também hão as palavras,
o vento,
a vontade,
nossas vidas,
vagas.

possibilidade


Que belo desperdício,
fazemos,
nós dois.
porque sabemos,
sabemos que temos a sorte,
de sermos os poucos,
 que sabemos.
e tanta estrada,
tanto caminho que se vai,
todos eles,
sabemos,
vão dar no mesmo cais,
esperando, nosso barco,
pois que temos que partir,
pois que sonhos,
vida,
cores,
o simples e o complexo:
o futuro,
há que se agarrar,
como quem suga o ultimo gole de vida,
a possibilidade,
única,
bela,
de amar.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

droga existencial


Todo dia,
tomo,
homeopaticamente,
overdose,
droga existencial.
nojo,
repulsa,
mas o que fazer?
é a droga existencial,
tudo o que pode,
é ser,
seja,
como,
tem,
dizem,
mostram.
durmo com,
efeitos misturados,
tentando,
desintoxicar,
acordo:
vamos diluir,
confundir,
a visão,
mais uma dose,
que ninguém morre,
droga existencial.

imagem sonho ou realidade


Nessa triste,
colorida,
e feliz,
época,
hipocrisia.
somos todos,
mudos,
ficamos,
a encarar,
nós mesmos,
uns aos outros,
aqui,
ali,
imagens,
que mostram só o que não somos,
eu desafio,
aquele,
que vai rasgar,
essa ilusão,
essa visão,
e mais,
rasgar a si mesmo,
submergir,
dizer:
sobrevivi.
vim pra contar,
isso não o lá,
como ontem,
na caverna:
hoje,
em nosso reflexo,
imagem,
sonho
ou realidade.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

umsóadiante

Eu sei,
não nego,
não ligo,
não vou,
me importar,
pode,
pois: dizer:
ilusão.
mas assim é,
assim sou,
na fé cega,
de um dia trazer,
paz,
brilho,
um livro,
de poemas,
de desenhos,
com sua vida ali,
minha vida a vir,
tristeza, alegria,
não mais solidão.
pois que digam,
todos esses,
não sabem,
da vida,
da morte,
só preenchem o espaço,
Mas um dia,
quando então falar,
coragem,
amor,
ou passagem comprar,
numa esquina cinzenta,
muitas ruas atrás,
o relógio vai contar,
não o tempo que foi,
mas o tempo do instante,
o tempo que para,
o tempo que cala,
o tempo da vida,
tiquetaque a começar,
um só adiante.

barreiras


Tem,
coisas que por mais que,
grandes,
são guardadas por finas barreiras.
Transparentes,
prontas pra romper.
Ah,
mas tão bonitas,
tão quietas,
trabalhando tão bem,
escondendo.
que fica-se, só, quieto,
olhando,
as coisas aqui,
as coisas ali,
movimentando,
diminuindo,
aumentando,
desfocadas,
por uma,
segunda pele,
todos criamos,
e há de ser assim,
finas paredes,
pra esconder e mostrar,
mas no centro fugir,
do não ou do sim.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

seca


Choro,
ou tento,
espremer,
gotas secas,
por aquilo que não tem:
seco.
choro pela vida, seca
pela cor, seca
pela alegria, seca
pela saudade, seca
pelos dias,
folhas,
queimadas pelo calor: secas.
mas choro,
sim, e talvez só,
porque não choro,
as lágrimas que deveriam,
mas são:
secas.

oco

Eu tento
ser
o outro lado
do espelho
o oposto,
do rosto,
do gosto.
Se os dias,
sugam,
a cor,
o gosto,
eu crio,
em mim,
pressuposto de sentir.
Assim,
dias em que se sente tão oco,
que até parece pouco,
o que se tentar admirar,
mas é a vida a sugar,
e no espelho,
o oposto do rosto,
resistindo,
a imaginar.

melancolia


Ah, a
melancolia,
as vezes,
solidária,
vem visitar.
Respirar,
sentar,
esquecer,
que a vida segue,
que coisas ficam,
outras não.
Fechar as cortinas do dia,
e ser,
ali,
quieto,
nada importa.
Sentir,
esse tempo que derrete,
pinga,
a vida,
a vida,
a vida.
Há dias que a melancolia não vem.

domingo, 28 de outubro de 2012

a máxima


Ela diz,
quase desmanchando, a acabar:
hoje quero lhe falar. Sobre a vida, sobre a morte. Mal consigo imaginar.
quem importa-se com tanto,
nem me causa muito espanto,
com o intervalo a me guiar, dizia ele, cego a olhar.
Se hoje vou partir,
se amanhã irei ficar,
não é isso que interessa,
meu segredo vou contar.
Quase como ir, quase como sugar,
sua urgência era tanta,
ele pôs-se a escutar:
quero viver, vive comigo.
nada aqui foi real,
tudo que viste, não viu,
não pense,
desliga-se de toda vaidade de relembrar,
o que era,
pois, não foi.
Eis que sempre me enganou?
Nunca como a mim mesma,
não há vida, sem entrega.
hoje sei,
como quem tira os pulmões pra repirar.
Enquanto não deixar,
o medo,
os outros,
toda materialidade,
nunca vais amar.
é assim,
tem que ser,
não se sabe,
o que ganhar,
nunca pensa no retorno,
só em se doar.
hoje,
fraca,
impura,
vivida alma, tenho a lhe entregar,
meu amor é alforria,
liberdade pra sonhar.
É estranho de pensar,
estranho lhe falar,
mais estranho é sentir,
acabara de acordar.
Sê aquilo,
que um dia,
num canto,
sala ou jardim,
sem beleza,
sem dúvida,
sem tristeza,
sê: a verdade que vivi.
Calado, nada além de corpo existindo,
ele não respondia.
 prova que nunca passamos,
triste fim da linha.
se nus,
sem vaidades,
sem a forma da imagem,
sem vontade, pretensão
ainda seremos,
eu,
você,
nós,
o mundo,
a razão de um sonhar?
teremos,
a máxima,
de entregar o que se ama,
e amar o que entregar?

não enxergar


Sabe,
um medo,
sempre,
como agulha que fura a pele,
a ilusão,
essa distância,
toda.
e essa sorte,
de vida,
de ver,
de ouvir,
de saber,
e o que fazer?
bloquear,
fugir,
não saber amar.
esse medo,
um dia,
não enxergar,
nunca mais ouvir,
nem tocar,
um dia,
não acordar.

o sutil


Quantas,
maravilhas,
descobertas,
imagens,
quanta imagem do que não é.
no entanto,
la atrás,
ficou,
ficaram,
a essência,
de toda,
vida,
existência.
não se sabe,
vida,
amor,
ou verdade.
tudo que é fino,
sutil,
bonito,
nos foge a palavra,
ou fugimos?
mas é tanto,
tanto e tanto espaço,
essa máquina,
em fúria,
quem se importa,
com amor,
quando se tem,
modernidade?

o nada


Como seria,
o nada.
quanta ausência,
qual o peso.
nunca reclamar,
do excesso de enxergar,
do excesso de sentir,
do excesso de amar,
pois triste,
é não ter palavras,
é um lugar,
onde,
nem o nada,
é uma ideia.

sábado, 27 de outubro de 2012

deixar


Eu não pedi,
mesmo assim,
a culpa.
sinto,
em cada passo, palavra pensada,
tristeza ou medo: a raiva.
mostrar eu quero,
provar não posso,
então aqui,
fico,
sendo apenas,
a verdade de tudo,
que eu sei em ti,
que não vê em mim,
silêncio.
nada fica de ruim,
por muito.
as vezes,
pequena dor,
então culpar.
mas,
não pedi,
não pediu,
deixar.

de pequena, continua


Ah,
as vezes,
queria viver só de poesia,
de canto, de beleza,
de todas essa pequenas,
bem pequenas.
sensações,
que conhecemos,
você,
eu,
o mundo.
tão bom, olhar o instante,
e sentir tão longo,
quanto a eternidade pode ser,
ah,
doce,
pequena,
insignificante poesia,
passam eras,
se vão pessoas,
derrubam muros,
erguem muralhas,
e você de tão pequena,
continua.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

meu canto, estrada


Eu não quero,
nada,
muito,
visão.
quero só meu canto,
pra pensar,
meu canto pra sentir,
meu canto pra chorar,
o que eu peço,
simples,
só silêncio,
que essas coisas bem aqui,
sei só eu, bem entendo,
então não ligue,
abra lugar,
que agora,
caminhar,
meu lugar é bem ali,
na estrada pra deitar.

linhas


É tão pequeno,
tão bonito,
o trabalho,
dessas finas linhas,
tão pequenas,
mas tanto brilho,
tão bonitas,
insisto em costurar,
lugares pra ficar aqui,
ali,
e tranquilo,
aproveitar.
que é tão raro e tão frágil,
que um dia,
dia oco,
sem pressa,
ou anúncio,
hão de se rasgar,
deixe as linhas,
costurando coisas belas,
sozinhas,
fracas,
costurando sem cessar.

diz o instante


Nessa brisa,
nesse lugar,
encontrei o instante de pensar,
o instante é tão raro,
com urgência, me falar:
lhe diz,
pra sonhar,
pra olhar a vida,
e se perguntar,
vivo?
diga, também,
que medo,
não pode,
ser.
há tanta coragem,
bem ali onde ele sabe,
e tão bela a coragem,
que outros dirão,
é medo.
diz, não acredite,
no que dizem,
os incapazes,
de amar,
há poucos nesse mundo,
sua sorte vai brilhar,
esses olhos,
tão calmos,
muita coisa vão passar.
manter,
ainda,
a coragem,
o sonhar,
um dia,
como tu,
alguém,
vais achar.

Licença


Me tenho o direito,
de pedir licença,
licença da vida,
licença poética.
Que tudo que vale,
é deixado pra traz,
tudo que é frágil,
não tem lugar,
não se vê,
na beleza,
vontade de apostar.
então,
licença,
passo com que penso,
uma pausa na existência,
quero ver, pegar, ser,
aquilo que não puder,
aquilo que não posso.
é no entre que a vida acontece,
entre olhar,
entre sentir,
entre deixar,
deixar ir.
Não me marque no relógio,
esse tempo de descanso,
que a licença é muito pouca,
os instantes se escondem,
e a estrada muito longa.
Assim,
podem ir,
que aqui fico bem,
eu a vida, o sentir,
campo, lua, prosseguir,
aqui eu me encontro,
aqui eu respiro,
colhendo o que deixaram,
todos esses no caminho.

Geração


Quem somos,
nós que vivemos
e respiramos
esse ar que não sabemos,
novos, incertos.
Fomos presenteados:
o caos de todos atrás,
erros,
sonhos,
seja!
o medo,
seguindo por caminhos estranhos,
sendo sonhos que poderíamos?
há que se quebrar as correntes,
e preencher o vazio,
iniciar as marcas,
não somos nada,
não somos,
sombras alheias,
somos nós,
e temos,
muito,
a dizer.

Escorrer

Tão bom que é,
chorar,
ah,
tão doce,
tão...
real.
chorar é viver tanto que escorre.
chorar não é triste.
sei da tristeza,
de nem ser triste,
nem alegre,
ah, essa tristeza,
que silencia a voz,
seca a lágrima,
endurece a alma,
essa tristeza lânguida,
plácida,
estéril.
que o mundo há de querer,
tanto, e com tal força,
 entristecer,
mas não seja triste,
seja triste,
escorra de si mesmo,
água dessa,
que mora em ti,
e espera tanto,
pra sair.

Belo e real


Eu cavo tanto,
tanto procuro eu.
não é que não tenha,
tanto,
muito,
aí o erro:
há muito.
Mas tanto,
tanto pouco.
do pouco da paz,
do pouco do instante,
deve-se,
essencial pra existir,
que esquecer,
esquecer tantas,
imagens,
sonhos,
sons,
gente sem substância,
deve-se,
essencial pra existir,
repirar,
o instante,
o nada,
a solidão,
e só existir,
você e o mundo,
que é tão belo,
e é real.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Amanhã


Ah,
o inacabado,
tem forma tão pura,
de coisa contemplada e não feita,
bonito.
A juventude dá poesia ao que
tenta,
sangra,
mas não é.
Nossas mentes tão velhas,
nossos corpos tão jovens,
permitem,
obra profunda,
do que não saiu da superfície.
Aproveitemos,
esse seria talvez amanhã,
porque o verdadeiro,
Amanhã,
traz os traços,
não do inacabado,
não do quadro guardado,
mas do vazio,
de tudo que poderia ter um lugar,
mas não foi.

Consumido pelo tempo

Vida passou,
vidas passaram,
passa, passando, passou.
Mas há o que passa,
há o que fica,
quem era tu, quem era eu
quando, de repente
ficou,
e passou, também.
isso de nós é como
foto,
pintura,
ou disco,
roído e riscado.
Há o que fica da arte,
consumido pelo tempo.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

luz

A luz invade com força, tanto peso. Sem nem ser convidada. Como é duro ter luz, tudo tão obrigado a se mostrar. Eu, você, o mundo. Todos incapazes e nus perante a vida, a luz. E continuamos, vivos, no entanto. Um corpo só pulsando pulsando, cansado como um grande coração que bombeia o oxigênio do mundo.
Quando a luz vem, há o medo. Porque o escuro é conforto, é vida particular. E então o sol de todos os dias com raios que dizem: é o que não foi, é o que não foi.
Olha-se os dias, o movimento, escancarados, fugindo da luz.
E você diz: há o exagero de viver, o exagero de ser, e de querer fundir nas mãos o amor do mundo.
Nessa claridade toda, não tenho resposta. É que o dia me roubou  o olhar. Mas eu sei, como o tempo e espaço dançam juntos, como a voz se cala, eu sei: o exagero é a verdade na luz. O amor do mundo é uma pena branca que flutua no céu de todos os lugares e ninguém vê.
Mas assim em paz, assim bom. É só a luz, que atravessa os corpos e nos une no ridículo de sentir.

esquecido


Talvez,
assim,
no esquecimento tenha paz.
bom,
sem cor,
vazio sem pensar,
então,
me encho de tudo aquilo,
que não se ousa lembrar,
recebo e guardo,
sem tentar,
sei um dia,
silêncio,
despertar,
tudo que gravei,
se vai,
a paz de esquecer,
a paz de ter ido/sido,
esquecido.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Não vi o caminho


Você,
humano,
tão errada fórmula.
Você,
humano,
sempre cego,
correndo e correndo,
em busca do nada.
Você,
humano,
não sente dor,
não sente pena,
não cai de joelhos.
Você,
humano,
sempre,
justificando,
“e a época que não me deixa”
“são as pessoas que não tive”
“foi o que não vi”.
Ah humano,
você,
triste,
e o mais triste,
é que nem sabe que és.
Você humano,
incapaz de amar.
Hoje eu vi nuvens escuras,
e não vi o caminho.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Docemente desistir


É pena
que o mais frágil
menos vigiado, é
menos cuidado,
tanta vontade de ser,
de crescer como planta ao sol,
mas na penumbra,
risos,
vida,
pode,
docemente desistir.

domingo, 21 de outubro de 2012

cinzas


As vezes deseja-se ser cinzas,
acabadas,
sem cor,
sem gosto,
sem cheiro e sem rosto:
sobras do tempo.
todo dia,
uma vontade de se convencer,
a ser fogo,
queimar na tentativa:
vem!
mas tão tolo esse mundo,
tão fracos que somos,
céticos,
moldados por outros,
que então assim,
não tentamos nos queimar,
nem ao menos mostrar,
que todo o resto é frio e sempre será.
então o cansaço,
cinzas,
o que o tempo não mostrou,
queimou e ninguém viu.

sábado, 20 de outubro de 2012

escondido no encanto


É quase um cansaço,
um desistir,
é quase chorar,
sem poder sentir.
tudo la fora,
brilha tanto e tão mais,
que as vezes o encanto,
é deixado pra traz.
é que ele é pesado,
precisa coragem,
nele há de cavar,
até achar onde ficar,
mas pro bom explorador,
o percurso é o que vale,
sabe que toda a confusão,
que seduz,
nada mais é que ilusão,
a verdade,
o primeiro suspiro de vida,
se encontra no encanto,
que não se vê,
que se teme,
que se foge,
nada mais é,
que,
aquilo que sabes,
e nem consegue dizer.

coração

Livre
com um coração
livre,
novo,
velho,
inesperado,
cansado de esperar.
Ironia,
que um coração
tão novo
tão velho
nunca tenha batido,
de verdade.
Por isso o encanto,
a beleza,
no meio do mundo,
no meio de tudo,
que é sujo,
que é triste,
que mal respira,
esse coração,
escondido,
esperando,
pra bater,
...

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

passarinho

Eu tenho assim um passarinho
que é sorte,
a sorte que eu saiba
a sorte de ser,
assim,
meu,
passarinho.
tem um canto muito raro
e as vezes muito triste
tão pouco canta ele
 dizem até que não existe.
mas me pertence o passarinho
como o vento ás nuvens
como a grama á terra
como os perfumes á flor,
é dever cuidá-lo,
todo dia,
como se fosse o primeiro
pois tem esse pássaro,
medo de amar,
medo de cantar,
medo de não saber,
pra onde voar,
então,
assim,
devagar,
como quem planta e espera,
eu o vejo,
se mostrar,
também sei que o passarinho,
aprendeu a confiar,
o que falta á esse espírito,
é um rio, espelho da vida
pra que se veja,
 e se entenda,
pássaro.
mas passarinho vai crescer,
passarinho vai migrar,
quando souber quem és,
passarinho vai amar.

A menina e o amor


O que fazes aí menina, quieta, fascinada. Deves ir embora, aqui não é teu lugar...
deixa-me ficar, eu vim de longe, só pra observar...
eu vaguei do baixo e do alto
e todas as cores eu vi
eu quase ceguei de luz
mas da escuridão nasci
deixa-me olhar mais um pouco
porque disso nunca sofri
a curiosidade é que me mata
aquilo que não aprendi
que é isso que todos dizem
mas que eu só faço observar...
Não podes ver, que ver não entende. Sentir não sente, és menina.
Sentir, não sinto, corri o mundo mas nunca alcancei
preciso ver
pra sonhar
pra descrever
pra pensar saber
o amor que dizem por aí.

confusão


Sei só
ser assim

só assim
o que eu encontro
o que encanto
só acha quem vê na confusão
construo, assim
uma ponte em mim
uma certeza
uma oração
assim, quase uma religião
se te achas por aqui
se encontra teu lugar,
é que então tinha razão,
é você então,
o motivo,
a essência,
a, enfim, compreensão,
dessa minha/tua
confusão.

todo seu


Me desculpe
é que assim
diferente
mente
estranho
não sei ser
e se me diz
o que pensava
queria
imaginava
ainda assim,
surpresa há de ser
eu calo
travo
só sei dizer
o que mereces de verdade
de todo meu ser
assim:
nesses verso, todo seu, você,
todo meu.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

nossos sonhos


Nossa vida é doce
a minha
a tua
ao menos a noite
algumas
que é quando sonhamos
não dizemos
não pensamos
respiramos
e sonhamos
te dou um sonho
não espero ganhar,
outro,
dois,
todos.
um dia,
talvez,
andaremos
mãos dadas
a confundir esquinas com sonhos.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

é poesia


Vês, não é que sou triste,
também não sou feliz,
sou a passagem lenta do tempo,
o ar no instante que não existe.
Vês, não é que sou só,
também não há muitos,
sou o riso do canto da estrada que ninguém vai,
a lágrima na chuva ácida.
Vês, não é que amei,
também não sou gelo,
sou o fogo que inflama e vira cinza,
sou o fogo e a cinza que se abraçam juntos em ti.
não é tristeza,
amor,
alegria,
ou solidão .
É  poesia.

domingo, 14 de outubro de 2012

Ainda seremos


Você abre os seus braços
e estica
freneticamente suas mãos
mas já se foi
as vezes é como o vento
vai
mas pode voltar
as vezes é um papel voando
passa por você
pra nunca mais
é que não sabe
ninguém,
aliás
que tem que ser assim
escondido
da vida
e do pensar
pra que não saibas agora
afinal somos tão jovens
e mesmo quando velhos,
ainda seremos.

Vida moderna


Vida moderna nos espreita
aqui
no bar
na rua
no sorrisos
na falta dele
na busca
sedenta
cega
pelo que?
pelo amor?
felicidade?
vida moderna nos espreita
a mim
a você
vida moderna te espera,
sua companhia.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

A sombra, a luz

Aonde vais? Nem te vi, nem teu caminho, e já vai assim pra longe...
Fiquei um tempo, não te lembras? Te vi.
Não chamaste a atenção? O que fazias aqui? O que tens nas mãos?
Não sou daqui. Sou visitante, o que tenho recebi.
Não vais já, então, não percebi tua invasão.
Não te preocupes, talvez eu volte, a vida não é linha, é espiral,
levo de ti mais do que percebes,
mas não sou daqui,
o que busco não tens,
o que precisas?
é alimento,
há que sempre não se conformar, e ir buscar noutro lugar,
Por que a pressa? Fica, as vezes me sinto só,
o que sente é só a falta da tua presença,
é que não és inteiro ainda,
nem te conheces,
mas um dia então,
acordarás,
e a luz pode te cegar,
o que vês agora é só a sombra,
a sua, em demasia,
mas também a de minha partida,
quando houver tua transformação,
não te preocupes,
pensa, chama,
venho lhe dar a mão.

Filho do instante

Não deixai. Não deixai que te tomes conta. Nunca. Repete: como oração. Não serei mais um, não serei mais um.
Descobre o instante, apodera-se dele. Perscruta e sente. Espera e respira. Há o instante.
Não há sentido na felicidade, não existe. Há o instante.
É sempre a brecha na roda da vida. Eterno fiar.
Então, atento, sempre. É o sentir.
O sentir importa.
Não a felicidade,
Não o possuir,
Lhe foi dado, queres ou não?
Uma capacidade de respirar as cores e pensar mil coisas delas. Não abras mão.
A vida vai fiar, fiar, fiar, até não ouvires som nenhum. Até que só veja o silêncio.
Não te enganes. É só o movimento te conduzindo pra espiral, pro fim.
Não há fim. Há eternidade. Há o instante.
Fecha os olhos talvez,
desprende-se da vaidade de falar,
esqueça, esquecendo-se se vai, o pensar.
Mas se abra, como o coração do mundo,
grande, feio, pesado,
abre e sente,
pulsa , pulsa,
até que acordes, outro
filho do instante.



quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Segredos de diamantes


-Sabes, há um mistério que envolve as pessoas tocadas pela dor, pelas verdades ocultas. Não, não as que tocaram. As que cavaram um canto nela pra descansar.
-Você acha que tem um mistério?
-Acho que possuem uma fascinação. Brilham, irradiam. Sua energia pulsa. Não, só elas são energia. O resto é matéria inanimada correndo o espaço.
-Seus olhos brilham quando você fala...e olha pra longe, o que delas quer?
- Nada quero. Mas preciso. Esses seres possuem uma doçura que nunca enxergam em si mesmos. É dessa doçura que me alimento. Habitam outro mundo. Nesse mundo todas as naturezas são outras. Os sentidos são outros. Para habitá-lo, necessito desabitar. E é eterno. Pois em si já se acaba. É tão profundo que não pode durar. Todo o peso que carregam é demais para os nossos dias. Então, um dia, abro os olhos, e esses seres se vão.
-E sofres com isso?
-Não. Com o tempo aprende-se que nunca irá possuí-las. Elas irão prosseguir a estrada que a fizemos parar. É difícil. Nunca sente-se tão só no mundo, quanto quando perde-se diamantes. Já viu diamantes?
-Não....
-Pois quando ver, vai saber.  Brilham e são mais fortes do que qualquer coisa... Esses seres são como diamantes que ninguém irá possuir. Mas é como se devessem ser assim.
-O que há nessas pessoas ?
-Há verdade. Há coragem de sentir o que todos rejeitam. De pensar sobre o que ficou esquecido. Há vida nessas pessoas. Mas é uma vida densa, cheia de perguntas sem respostas. É como respirar outro ar. E é tão belo. Quando há lágrimas, essas não são como nenhuma outra. São únicas. Se você as colher, é alguém de sorte...
-Encontrou muitas dessas pessoas?
-Há pouco vi uma partir...
-E como consegue prosseguir depois?
-A certeza do único me preenche de uma forma como nunca nada mais o fará. Essas pessoas são segredos. Não se convive muito com um segredo...mas os melhores são guardados pra sempre.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Deixa-me ir, não solta a minha mão.


Cansado de tentativas sem fim, queria ir, mais nunca podia deixá-la.
-(...)Me olha nos olhos, quem é você?
-Não chores, por favor. O que precisa de mim nunca poderei lhe dar. Sou assim. Não posso te olhar também, porque me queima o coração. Não sem quem sou, nem pra onde vou. Por dentro, sinto tanto que respiro devagar pra não cansar. Não conheço nada do mundo, mais carrego todo o sentimento comigo, pesa tanto que você nem sabe. Não me peças que te olhe, jamais, se tem algo que não sustento, é olhar.
-Por que és assim? E o que queres de mim?
-Não sou assim, sinto assim, e sinto por ti, que tens medo de mim. Não posso te oferecer nada, tudo que tenho é difícil, e não aguentas carregar. Mas assim mesmo. Não posso desistir. Te preciso, te fiz assim, pra mim. Não vá embora, que só você pode implorar aquilo que não posso lhe dar. Isso me dá forças pra continuar. Não me faças perguntas, que não sei responder. A gente precisa de uma pena, as vezes, pra carregar.
E ele sorria tristemente, os olhos delirando de encanto e medo. Não iria mais embora.

Parece, mas não é.


Há uma coisa neste mundo. Não, não é desde mundo. Não se sabe de onde vem, nem pra onde vai. Um dia desperta.
Não conhece as regras, portanto não as obedece.
Não conhece a natureza, com medo desta, a desafia.
Sua existência é a pulsão de uma força que só sobrevive destruindo...
viajou estrelas
habitou tudo quanto foi aparência curiosa,
mas rápido se cansa, não encontra o que a prenda, inquieta vai embora.
Mas um dia encontra uma alma, e apaixona-se.
essa alma, não sabe, mas nasceu pra ser habitada por essa coisa
pinga gota a gota seu veneno
estranho, incômodo, letal
coisa e alma são uma só
mas não é o suficiente
vagam sedentos, a procura do que falta
em uma esquina, o tempo para
encontra-se o que falta
uma outra alma desavisada, passa a ser também, habitada
a ambição desse pulsar é tão grande, que juntos, reduzem ao nada tudo que não for aquilo que fazem nascer todos os dias.
E a dança começa
Em uma volta sufocam-se
na outra se abraçam
Choram e bebem um a lágrima do outro.
é sempre a coisa a se alimentar.
Eis então que nasce, e se desfaz.
Parece a morte, mas é o amor.

Multidão


-Queria ser ouvido
...ouvido ouvido
-Quem responde?
...onde onde
-Estou só no mundo?
...fundo fundo
Não sabia que lugares cheios possuíam ecos.
São só as pessoas,
e a falta de ideias.

O menino e a Pedra

Havia um menino
Um menino e uma Pedra
E toda vez que eu passava, o menino a pedra chutava.
Eu, curiosa e imprudente
Me perguntava
Por que tanto chuta a pedra, o menino
Passei a olhar o menino, todo dia, e lamentar
Olhava em seus olhos, e ele chutava a pedra
No dia que me olhou, respondeu:
Aquele que vias
Aquele que viu
chutar a pedra,
é outra pedra
é outro Eu.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Me leve


Desejo que você tenha forças de sair de toda sua aparência. Que teus espelhos não reflitam. Que não tenha admiradores.
Que rasgue a camada de ilusão que mostram de você.
Que vá longe.
Muito longe, não volte talvez,
Se voltar que seja pra ser outro.
Pra amar como outro,
Pra tocar como outro.
Que você vá, veja cores que não viu. Que encontrei lugares que te façam chorar, por tão simples ser.
Faça isso por ti, por mim,
me leve na bagagem, sem saber que me leva.

Sobre rituais e segredos: o início do pertencer


-(...) Eu serei pra ti como um copo d’água no fim do dia- disse ela-. Não terei gosto, não serei doce. Mas vou saciar tua sede.
-Por que um copo d’água?
-Porque, como a água, serei a mais esquecida dentre as substâncias. Não tenho cor, por isso o dia nada de mim trará á você. Somente a noite irá me procurar. Vai beber, se encontrar, se sentirá completo. Mas completo com coisa alguma. Sou apenas um copo d’água. Não tenho gosto, não sou doce. Sentirá aromas e provará de mil coisas. Todas estas, serão pra você como únicas e carregadas do frescor do novo. Serei velha, carregada de muitos sentidos e pesares que me abatem as coisas da vida. Mas nada disso chegará a você. Chegará somente a essência do que necessita. Aquilo de que não lembras. Mas sempre precisa absorver.
-Não perguntarei por você?
-Não. Serei pra você e será pra mim como habitantes entre mundos. Tentará dizer á outros de que sou feita, do que gosto. Irá querer provar que existo. Mas não fará. Não deve. Nada que digas deste mundo servirá pra me provar. Não me conhecerão os outros, somente você. Serei tua espera no fim do dia. Guardarei o melhor pra você.
-Não serás triste?
-Se serei não saberás. Direi todos os dias o que te fizer plumar no mundo. Te contarei histórias, vais pedir minha mão pra pulsar na sua. Não passaremos de velhos conhecidos. Precisarei da tua necessidade. Precisarei que precises de mim. Precisará saciar-se do peso do mundo, beberás seu gole. Mas tu é humano, é a carga que carrega o puro. Assim, implorarás de todas as maneiras para que eu me mostre. Me fará beber do veneno do egoísmo. E todos os dias testarei minha força e coração. Vou querer abraçar-te e dizer: fica. Vou querer chorar e dizer: pertences a mim. Me fará fazer-te sofrer, mas só um pouquinho, para que não sofras por muito mais. Vou querer sacrificar tua felicidade pela minha e pedir: não vá. Tu, que é todo coração, cortará a ti e aos Homens pra atender-me. Nada disso farei. Serei teu segredo. Tu serás o meu. Com o tempo, vai te acostumar que eu seja somente um ponto de luz em tua vida. Não toda luz, toda luz pode cegar. Mas tu serás pra mim como o entardecer. Chorarei sua partida sozinha. Esperarei tua chegada esquecendo o resto do mundo, só por um instante de beleza. Meu único conforto será o da tua volta, do pequeno ritual da tua vida circundando a minha.
-Não esquecerei de ti?
-Vai esquecer de mim. Mas me terás sempre um pouco, sem saberes. Pois serei pra ti como um copo d’água. A água está em todas as coisas, mesmo que não o saibam.

Tempo e Espaço


Somos nós e mais dois. Sempre. O que quero dizer com nós e mais dois? Somos nós, o tempo e o espaço. Não vivemos sem eles. Mais essencial: não convivemos sem eles. Podem ser curtos, ou linhas sem fim. Mas os trazemos sempre pra perto ou pra longe, pois se não existissem, nos veríamos sempre face a face. Não queremos isso.
Quando temos solidão, queremos preenchê-la, quando preenchemos, vemos que o que colocamos não é mais vazio do que antes. E desejamos mais tempo e espaço para que possamos respirar e nos ver de verdade. Analisar a nós mesmos, analisar os outros, analisar os outros misturados com nós mesmos. Na maioria das vezes é inconsciente. Juntos , estamos pensando no que vai ser quando não estiver...ou quando estiver longe. Estamos pensando no tempo que foi, no que virá, e se ele atropela o que sentimos ou fazemos. Manejamos o tempo, o tempo todo. E á ele adicionamos distâncias. Pois as distâncias, contraditoriamente, aproximam as pessoas. Nos vemos de verdade, quando estamos no meio dessas duas variáveis. Chegamos mesmo a dizer, tristemente: “Quando estiver la, sentirá minha falta”. “Sozinho, ele verá meu valor”. “ Precisa ir pra voltar”. Precisa ir pra voltar? Será mesmo? Ou somos só nossa covardia e medo de esquecer distância e tempo, e amar as pessoas, dizer á elas o que pensamos bem no fundo, mesmo as coisas que não nos fazem sentido... A verdade é que não convivemos. Convivemos com tempo e espaço, pois não nos mostramos, senão, á eles.

domingo, 6 de maio de 2012

Entre mundos


Entre o mundo que vês
E o mundo que existe
há outro mundo
Neste habita somente solidão
Só existe nele silêncio
Nem um sopro de paixão...
Pensar alto é proibido
Mover-se é desnecessário
Nesse mundo habitam seres
Mas são todos invisíveis
Não se veem, não se tocam
nem nunca são possíveis
Nesse mundo
Não alcançará
Sempre que tocar meu rosto
olhar meus olhos
é este mundo trespassando suas mãos
é a entrelinha da vida
onde nada é escrito, nada é falado
o que se pensa, o que se sente
fica pra sempre guardado.

sábado, 21 de abril de 2012

É verdade (...)


É verdade, nada mais que uma doce e cinza verdade
que tenho tudo aqui
tenho o céu, esperando ao meu sinal pra chorar sobre o mundo tudo que aguenta
tenho cantando pra mim, melodias lindas, melodias calmas
tenho esse ar seguro e inquieto que me abraça e me encoraja
mas não tenho quem queira ver isso que vejo
que me dê a mão, suavemente, e diga que discorda dessa doce e cinza verdade.

domingo, 1 de abril de 2012

Sobre vento e cafeína

“Vejo os Carros. Pessoas. Os passos
As árvores suspensas parecem dizer: não se vão...!
Mas la vão eles...
É esse vento frio que os leva? Não sei.
Mas, Velozes.
Vorazes.
Devastadores.
Parecem levar a si mesmos.
Até o vento, antigo pastor das nuvens
parece ter sido deixado pra trás.
Sopra e diz: perdi o jogo, estou velho e cansado.
Enquanto isso
Descansa ao lado,
uma xícara de café.
Calma.
Quieta
Desfaz-se em fumaça.
Parece me esperar
Sabe que essa pressa toda não me convêm.
Observo.
Volto ao estado da Calma absoluta.”

quinta-feira, 15 de março de 2012

Poema do engano

O que há de errado?
repito a mim e repito sem fim, você me ouve ai onde está?
o onde é assim tão longe?
só vejo uma longa camada cinza
quando saio porta afora

quando penso que outrora
tinha tudo em mãos
mãos, essas que desenham linhas
imaginárias linhas, de algo já intocável

Mas não serão só meus olhos?
cansados
velhos
Olhas pra mim e diz
mas tem olhos tão bonitos
jovens esses teus olhos

te olho e digo
olhas de novo, mas desta vez repara
Se conseguires ver, te invejo, eu

pois esses olhos
velhos
cansados
se mantêm enganados
não sabem o que vem

se guiam por sombras
pedaços do mundo
desse abismo profundo

Mas eu, teimosa, hei de ser
tateando na neblina, vou
e não deixo que mais uma vez
na luz ou na escuridão
definam o que sou.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Chuvas de verão


São tempestivas. Fortes. As vezes são cinzentas, outras de um dourado-fim-de-tarde de tirar o fôlego. São como a transpiração da natureza. O seu desabafo. Mas por que nos identificamos tanto com elas, por que quando chegam, parecemos nos cercar de um silêncio precioso, de um ritual de respeito? São algumas das sensações que nos passam, as chuvas de verão.
Podem simbolizar várias coisas: uma resposta. Pras pessoas que são supersticiosas e acreditam em sinais (particularmente, não faz meu gênero), podem ser uma resposta poderosa e ruidosa pros seus pedidos silenciosos. Ou ao menos uma pausa no tiquetaquear dos pensamentos aflitivos.
Um alívio. O turbilhão pode lavar o espírito dos inquietos. De repente, tudo aquilo que martelava insistentemente em sua cabeça, sede lugar a voz de algo maior, a voz da natureza. E a chuva traz paz. Também aos que sofrem com o maltratar do sol. É um Oasis. É o presente que os que dependem da irrigação da natureza (sem toda a modernização dos que podem custeá-la), recebem do                planeta.
Mas também pode ser Um aviso. Aos que não podem com ela. Que se abriguem em suas casas, que não a questionem, que não meçam forças. Aos que fixam raízes onde ela destrói as mesmas, ela mostra o porquê não pode ser subestimada. Se for preciso, sempre conta com os trovões pra ajudar na ameaça.    
E essa é a beleza dessa Deusa das águas. A sua dualidade. Capaz de prover e retirar. Fascinar e amedrontar. Mas acima de todas as respostas, conseqüências ou sentimentos sobre ela. O que cada um sente dentro de si toda vez que a ouve chegando é que não podemos subestimá-la.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Você precisa relaxar


Nós temos um sério problema com o curso da vida. Ok, talvez eu tenha...mas com certeza não estou sozinha nessa. Estamos sempre tentando ter o controle de tudo... Nossa preferência política, nossa cor preferida, o sabor do sorvete, qual é o seu melhor amigo...estamos sempre nos obrigando a segurar bem as rédeas de nossas vidas, inclusive sobre nossos instintos e sentimentos.
O paradigma da sociedade moderna é ser racional, controlar nossos impulsos mais inexplicáveis e nossos sorrisos nômades. O ponto é: os pilares dessas convicções precisam estar firmes em tudo?           
Andei pensando ultimamente sobre algumas coisas da vida. Sobre o cotidiano, sobre as pessoas...e sobre os coquetéis mais perigosos: os relacionamentos. E a partir desse viés controlador, fui observando como agimos eu e as pessoas com as quais convivo. E quer saber a conclusão? Somos um bando de insanos. (Ok, talvez agora você deva estar pensando: “E como é que você não percebeu isso antes?”). 
Nós simplesmente não deixamos que tudo flua corretamente. Quando algo começa, mesmo quando é uma simples conversa de bar, queremos saber o motivo, queremos o objetivo. Somos tão tolos e não percebemos que a vida é um grande tear. Não adianta querermos seguir e destrinchar linhas retas. O corpo desse tapete mágico é costurado com mil e uma voltas. Não sabemos de onde elas vem, nem pra onde vão.          
Nem sempre somos culpados. Muitas vezes quando deixamos o traço do lápis correr solto, os desenhos feitos não nos agradaram, as vezes foram tatuados, de modo a deixar certos traumas visíveis. Mas precisamos sair dessa bolha de conforto e deixar que tudo serpenteie naturalmente. Não podemos nos apegar ao vivido e construir modelos para o vivido ir-se há.
Nossa tensão e PRÉ-ocupação com o post scriptum está assassinando as relações. Precisamos de ar.
Essa é uma lição que deixo para nosotros. Sorria. Convide, vá. Dance. Envie mensagens. Pise torto. Chore se não der certo. Corra quando sentir que não agüenta. Misture pessoas. Ame-as.
Com um pouco de bom senso e  o respeito devido ao ser-não-ser de todos, tenho certeza que um pouco de incerteza não faz mal á ninguém.        
Enjoy it.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Pedras...

Quer saber? No fundo, nada importa. Vivemos uma luta diária. De sexos, de gêneros, de gostos, de objetivos, de tristezas, de motivos...sem motivos. Vivemos a eterna dialética de nossas preferências superficiais. O que necessitamos é mostrar aos outros que possuímos o eterno controle sobre nós mesmos, e necessitamos gritar isso ao mundo, que todos saibam que temos as rédeas de nossos pensamentos, do nosso      querer.
Esperamos ganhar nossa própria admiração e admiração alheia, ou as vezes a raiva alheia, porque ela acaba nos dando uma felicidade própria. Cutuquei-o, fiz com que demonstrasse alguma reação. Ainda possuo algum valor... 
Mas, por que então, isso não traz resultados? Por que, então, partimos de um á outro, em uma insana busca por alguém que nos reflita tão bem, por que nos procuramos tanto no outro?               
Quer dizer, não que o eterno caminhar da vida, o frescor e a cor infinita de conhecer pessoas, não seja certo. Muito pelo contrário. É mais do que certo. É necessário. São as pedras pontiagudas e diferentes que cobrem cada um que fazem com que seja mais interessante descobri-la, porque o delicioso é que o está por traz das pedras, é aquilo que se desarma para aquele que foi corajoso e persistente o suficiente pra descobrir. E com isso não torno essa caminhada romântica, de modo algum. Pois as pedras devem ser retiradas em todas as relações, desde a amizade ou a paixão desnorteante. As pessoas são feitas de pedras. Seus filhos são feitos de pedras, sua avó, também. Pois bem, se o insólito e inesgotável é o que se encontra por traz delas, por que cargas d’água nos contentamos tanto com as pedras? Essas que na maioria das vezes nos furam e desgastam tanto, a ponto de não conseguirmos segurá-las mais?
Estamos preguiçosos, preguiçosos e egoístas. Preguiçosos porque a primeira agulhada, nossa frágil palma da mão, desacostumada com o lido do ser humano, foge pra algo mais macio. Egoístas, pois já nos dirigimos ás pessoas com moldes de pedras que queremos retirar, ou construir algo, junto com as nossas. Se as pedras não são aquilo que queríamos, partimos logo em debandada, com a desculpa pronta de que não houve uma “química”, e recolhemos nossa mão pseudoferida e vamos logo massagear nosso ego. Mas não, não sabemos o que é estarmos feridos, não de verdade, não chegamos a sentir o gosto...ah não ser que você saboreie pedras, particularmente não faz meu paladar. Sofremos sozinhos, por nós mesmos, por antecipação, um sofrimento por ilusão. 
Tenho a felicidade ( quando digo felicidade, trago implícitos nessa palavra, todos os gostos e sabores que a conservam, os amargos também), de trazer as mãos calejadas, porém cada vez mais fortalecidas. Elas doem sim, mas é só no começo, depois acostuma-se. Fecho os olhos e respiro livremente o ar que a essência de algumas pessoas levam consigo. Não há pressa nisso, não há urgência, há, talvez, uma necessidade, calada e reprimida em todos vós, mortais e imortais de mastigar e ruminar um pouco mais da   vida.
Comecei, e faço o convite a quem se dispuser, estou lhe esperando. Leve o tempo que for, um passo de cada vez, e deixe essas pedras pra lá, moço. Não perca seu tempo construindo castelos que só te protegem de si mesmo, jogue as pedras fora, fora do seu caminho.